Hagiografi a em cena: Os martírios de Santa Bárbara

Maria Idalina, Resina Rodrigues
2008 Via Spiritus   unpublished
Uma santa que já não é santa Desde 10 de Maio de 1969 que Santa Bárbara perdeu os direitos ao culto litúrgico, por decisão do Papa Paulo VI que considerou não provado aquilo que, da sua vida e martírio, se conta. A verdade, no entanto, é que, pelo menos entre nós, se mantém razoavelmente venerada, como advogada contra os raios e tempestades, recordada na toponímia, invocada em orações populares e recuperada em uma ou outra representação, com direito a recolha 1. Mas, no que ao teatro (também)
more » ... crito respeita, na Península Ibérica, que saibamos, foram os espanhóis que, nos séculos XVI e XVII, mais atenção lhe deram; teremos, por isso, um corpus em que apenas é possível incluir um dra-maturgo luso, Afonso Álvares, autor de um Auto de Santa Bárbora, a par de três castelhanos: dois que provavelmente ainda o acompanharam, Diego Sánchez de Badajoz, que nos legou uma Farsa de Santa Bárbora, um anónimo que redigiu um Auto del Martírio de Santa Bárbara, e um que veio mais tarde, Guillén de Castro, pai de uma Comedia Famosa de El Prodígio de los Montes y Mártir del Cielo; e, mesmo assim, lamentamos não ter tido acesso a outras duas obras: a Vida y Mar-tirio de Santa Bárbara, suponho que ainda inédita, e El Arco de Paz del Cielo, Santa Bárbara, de José Arboleda [Alejandro Arboreda], cujo estudo terá de fi car para outra ocasião. Mas, para começar, recordemos a sua biografi a tal como a apresenta uma edição moderna espanhola da Legenda Aurea (século XIII, com muitas recupe-rações posteriores), embora, para mais antigo conhecimento, devamos referência a uma Passio do século VII 2 da autoria de Simeão Metafrastes. 1 Ainda recentemente me chegaram notícias de festividades em sua honra, especialmente nos Açores. 2 A lenda não aparece em Tiago de VORAGINE, Legenda Áurea, tomos I e II, introdução e revisão da tradução do original latino de António Maia da ROCHA por Aníbal PINTO DE CASTRO, Porto, Livraria Civilização, 2004, nem em muitas outras edições autorizadas porque, na realidade, só a partir das edições acrescentadas do século XV na Legenda foi recolhida; resumo-a com base em La Leyenda 00_ViaSpiritus_15.indb 137 00_ViaSpiritus_15.indb 137 8/26/09 5:09:28 PM 8/26/09 5:09:28 PM Dorada, tradução de J. M.MACÍAS, Madrid, 1982. De fontes já me ocupei ligeiramente em «Auto de Sancta Bárbara: a herança e os arranjos», Via Spiritus, I, Porto, 1994. 3 Sobre esta questão e outras relacionadas com o nosso corpus, consultar Ann E. WILTROUT, «Hacia algunas interpretaciones dramáticas de la leyenda de Santa Bárbara», Filología, XV, 1971. 00_ViaSpiritus_15.indb 138 00_ViaSpiritus_15.indb 138 Diferentes na confecção, no estilo, nos movimentos de cena, as quatro obras aparentam-se, evidentemente, pelo argumento; frutos de tempos e de modos diferentes de entender a prática teatral, não deixam por isso de nos legar uma mes-ma lição hagiográfi ca, seja ou não Bárbara uma santa dos altares mais ortodoxos. Abstract Studying different texts, this article intends to show how, despite theatrical practices of different times and stiles, the same hagiographical message remains. 00_ViaSpiritus_15.indb 161 00_ViaSpiritus_15.indb 161
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