As palavras e as pedras - De Architectura 1, 2: o preceituário da boa arquitetura

Mário Henrique Simão D'Agostino
2008 Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo  
De Architectura de Vitrúvio, único supérstite dentre muitos escritos sobre arquitetura de que somos apenas informados pelo autor (VII, Praef.), afigura-se a nós como uma sorte de «lente» -velha e opaca, a bem dizer-, pela qual procuramos vislumbrar algo dos praecepta a que assistiram os gregos em seus acumes, clássicos e helenísticos. Redigido em outro momento e lugar, o aparato de vocábulos que lhe serve de parâmetro, flores da Hélade, contrapõe-se, como lastima reiteradas vezes o arquiteto, a
more » ... ezes o arquiteto, a um cotidiano de práticas edilícias e de valores deveras distinto dos então emulados. O apreço pelo léxico helênico e os ajustes realizados entre o latim e o grego -com a infinitude de obstáculos postos à assimilação almejada-, não impedem o leitor de reconhecer, no elenco dos preceitos fundamentais, a prevalência de uma noção que, por muitas sendas, apresentase como o princípio maior da «sempiterna beleza» dos antigos. Listado entre as seis partes constitutivas da arquitetura, o preceito da simetria (συμμετρία, em grego; mantida no latim, symmetria) adquire autoridade indelével pelo aval dos maiores. Duas referências: Platão, no Timeu, esquadrinha a ordem harmônica do universo, detalhando suas correspondências analógicas e números divinos; n'A república (VII, 529e-530a-b), o filósofo adverte que a verdadeira simetria não se encontra neste mundo, mas descende do supraceleste. Aristóteles a ela também faz referência nos Tópicos (116b21), anotando que «a beleza parece ser uma certa simetria dos membros»; na Ética a Nicômaco (1106b8-12) memora que o artista em sua obra visa ao ìÝóïí, ao «meio-termo» proporcionador da harmonia. No entanto, as expectativas de colhermos no tratado romano um testemunho fiel do modo como a simetria se vincula a preceitos mais operativos, peculiares à consecução da beleza na ars aedificatoria, cedo se dissipam. A exposição do autor, sobretudo aquela reservada ao livro prólogo (I, 2), alimenta, desde o Renascimento, inflamadas diatribes. À luz das recentes exegeses do escrito antigo, objetiva-se aqui sopesar as invectivas lançadas contra Vitrúvio -amiúde contra a preceptística «abstrusa» ligada à simetria clássica-, bem como seus contributos aos esforços de teorização da arte no ocidente moderno.
doi:10.11606/issn.1984-4506.v0i8p164-181 fatcat:i6x65lp53jcdxjnxbzo4ordkpa