Fontes primárias, acervos literários e os rastros da história

Karina Ribeiro Batista
unpublished
Resumo Este artigo discute o "lugar" da pesquisa arquivística dentro da Nova História, dando especial atenção aos acervos literários, os quais representam uma mudança, em seu aspecto formal, com relação aos arquivos institucionais. Discute também os interesses e atitudes do pesquisador contemporâneo, que demonstra uma preocupação com todas as esferas da atividade humana, e o caráter interdisciplinar que resulta de tal posicionamento. Palavras-chave: Nova História, literatura, arquivos. Abstract
more » ... arquivos. Abstract This article argues the "place" of the archivistic research inside of New History, giving special attention to the literary assemblages, which represent a change, in its formal aspect, with relation to the institutional archives. It also argues the interests and attitudes of the contemporary researcher, who demonstrates a concern with all the spheres of the human activity, and the interdisciplinary character, that result of such positioning. A interdisciplinaridade e o relativismo cultural, que permeiam a Nova História, justificam o fato de o trato com as fontes, e até sua definição, constituírem o maior problema enfrentado pelos novos historiadores, tendo em vista que a preocupação com uma maior variedade de atividades humanas resulta na tarefa de analisar uma maior diversidade de evidências. Se, de acordo com o paradigma tradicional, a história deveria se basear apenas em documentos oficiais, "emanados do governo e preservados em arquivos", agora essa espécie de documentação é posta em xeque, e a denúncia de suas limitações-os documentos oficiais, em geral, expressam o ponto de vista do poder constituído-alarga consideravelmente o conceito de fonte. Os historiadores passam, então, a buscar outros tipos de dados, que suplementem os documentos oficiais. Dessa forma, fontes orais, visuais e estatísticas, além de novas formas de abordagem dos antigos documentos, passam a compor as novas histórias. Contudo, deve ficar claro que tais fontes registram problemas tão embaraçosos quanto os documentos oficiais (cf. BURKE, 1992). Paul Ricoeur, ao refletir sobre a dilatação do conceito de fonte, afirma que, "a caça ao documento não cessou de anexar zonas de informação cada vez mais distantes da espécie de documentos conservados em função de sua suposta utilidade" (RICOEUR, 1997, p.68). Dessa perspectiva, todas as fontes que, a partir de um determinado número de questões, auxiliam a pesquisa do historiador são consideradas documentos. Qualquer rastro do passado pode deixar de ser apenas um indício e se tornar um documento para o historiador, desde que ele saiba interrogar seus vestígios e questioná-los, orientado pela temática de sua pesquisa. Para Paul Veyne, o problema da história está justamente no fato de ver tudo através da ótica das fontes: "o conhecimento histórico é o que fazem dele as fontes" (VEYNE, 1971, p.251). A seu ver, em vez de confiar no dado, a história deveria refletir sobre as estruturas, e deixar de lado sua inclinação a explicar tudo de que fala. Ao historiador, conseqüentemente, cabe lutar contra a tendência de considerar que tudo é evidente. Só assim ele poderá discernir entre as questões sobre as quais deve se debruçar e aquelas que devem ser descartadas, "pois a dificuldade da historiografia é menos de encontrar respostas do que
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