Percepções e intervenções na metrópole: a experiência do 'Projeto Arte/Cidade em São Paulo (1994-2002)

Vera Maria Pallamin
2006 Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo  
N ponto crítico o plano artístico, as primeiras ocorrências do Projeto Arte/Cidade, em 1994 -'Cidade sem janelas' e 'Cidade e seus fluxos' -tiveram uma presença marcante em São Paulo. Com ampla divulgação na mídia e considerável apoio institucional, tratavase de um tipo de intervenção urbana de caráter diferenciado e singular em relação ao que se tinha registrado até então em solo paulistano. Se, particularmente desde os anos sessenta, já contávamos com experiências estéticas temporárias
more » ... temporárias efetivadas em espaços abertos e comuns -alguns 'happenings', as ações de grupos como '3Nós3' e 'Manga Rosa', ou o evento 'Mitos Vadios'(1978), 'totalmente experimental' e realizado num terreno baldio na região consolidada da cidade, para citar apenas alguns -poucas iniciativas neste campo, contudo, tinham marcado os anos oitenta. Nestas, certamente destaca-se o pulso de Aracy Amaral à frente do Museu de Arte Contemporânea da USP, na organização do projeto 'Arte na Rua', I e II, reunindo grandes grupos de artistas na elaboração de trabalhos de arte a serem expostos em outdoors, espalhados na malha urbana. Neste contexto, a mudança de tom impressa pelo 'Arte/Cidade' em relação a este tipo de produção foi incisiva, não só enquanto empreendimento cultural, mas também pelo modo como se propôs tratar a questão artística da especificidade do lugar ('site-specific'), então em debate no circuito de arte mais amplo. Além disso, com a organização de edições subseqüentes --'A cidade e suas histórias', em 1997, e 'ArteCidadeZonaLeste', em 2002 --o projeto configurou como que uma marca associada a seu curador, Nelson Brissac, implementando-se em escalas maiores e mais complexas. Embora muito se tenha comentado sobre as propostas, os artistas, as condições, os conceitos e os lugares envolvidos em cada um destes eventos, via de regra, as matérias publicadas destinavam-se a considerações pontuais, sem consumarem um exame mais extenso ou que extrapolasse o registro documental. Com a pesquisa de mestrado realizada por Gabriel Girnos Elias de Souza e orientada pelo Prof. Dr. Fábio Lopes de Souza Santos / EESC-USP, temos em mãos um trabalho inédito que considera o 'Projeto Arte/Cidade' em seu conjunto, explicitando sua genealogia e entabulando uma cuidadosa ponderação crítica a seu respeito. Construído a partir de um olhar proveniente da arquitetura e urbanismo, este estudo define as relações entre espaço urbano, estética e política como o eixo central de sua leitura, situando tal projeto no âmbito da discussão sobre cidade e cultura. Tensionado pela questão sobre como a dimensão estética tem atuado como fator de politização ou despolitização na cidade atual, a caracterização que o autor faz do 'Arte/Cidade', e das especificidades de suas edições, contém a preocupação em explicitar que concepções as pautam sobre cidade, processos urbanísticos, história do lugar, memória urbana, público e recepção, e em que termos foram construídas experiências estéticas críticas, as potencialidades e contradições envolvidas em sua concretização. Ao traçar alguns dos vetores contemporâneos que incidem sobre a vida cultural de grandes cidades como São Paulo, Gabriel Girnos percorre os relevos da crítica à espetacularização (Debord), do encolhimento da política (F. Oliveira) e da chamada
doi:10.11606/issn.1984-4506.v0i4p151-152 fatcat:idxfmosmfnfabiz2xla65dkxwe