Variações sobre arte e ciência

Octavio Ianni
2004 Tempo Social  
Uma das características marcantes da história do pensamento moderno tem sido a clara demarcação entre filosofia, ciências naturais, ciências sociais e artes; de tal modo que a religião e outras modalidades de vida cultural e intelectual são postas à parte, como alheias e incompatíveis com a modernidade. A metáfora "desencantamento do mundo" expressa esse processo, esboçado em tempos antigos e medievais, mas que adquire crescente predomínio desde a Renascença, a descoberta do Novo Mundo e a
more » ... Novo Mundo e a invenção da imprensa, acontecimentos esses que se beneficiam do clima intelectual que acompanha a Reforma Protestante. De hecho, en nuestra cultura occidental la filosofía ha estado vinculada desde el principio a la aparición de la ciencia. Esto es lo nuevo que integró a Europa en su unidad y que hoy en día proyecta en irradiación universal la cultura científica propia de Europa desde la peligrosa situación de la civilización mundial [...] Conocemos los grandes logros de las grandes culturas de Oriente Próximo, conocemos las de Latinoamérica y del sur y del este de Asia. Sabemos, por lo tanto, que la cultura no ha tomado necesariamente -ni en todas partes -el camino de la sabiduría y su potencia. Este camino se ha seguido mucho más en Europa. Sólo en Europa se ha dado una diferenciación entre nuestras actividades intelectuales que nos permite distinguir a la filosofía de la ciencia, el arte y la religión [...]. En Europa nuestro destino intelectual adquirió forma gracias al *Aula Magna realizada em 3 de março de 2004. Variações sobre arte e ciência Tempo Social -USP 8 hecho de que se produjeran las máximas tensiones entre estas múltiplas formas de la fuerza creadora. En especial el contenido de la filosofía y de la ciencia tiene una importancia determinante en la situación actual de Europa (Gadamer, 1990, pp. 24-25) 1 . Em escala crescente e de forma cada vez mais intensa e generalizada, as distinções entre as linguagens filosóficas, científicas e artísticas acentuam-se, adquirindo contornos de narrativas radicalmente distintas. As demarcações tornam-se cada vez mais nítidas e, muitas vezes, rígidas. Aos poucos, os "modernos" distinguem-se dos "antigos", inclusive porque não mesclam teologia nem mitologia com filosofia, ciência e arte. Ao mesmo tempo em que se afirma e reafirma o nascimento da filosofia no âmbito do pensamento grego, esquecem-se as exegeses de tradições do pensamento e mitologias gregas e de outras civilizações, com as quais nascem algumas proposições fundamentais da metafísica e da epistemologia. A partir de Bacon e Galileu, assim como de Maquiavel, Descartes, Spinoza e outros, desenvolvem-se metodologias e epistemologias, codificando procedimentos científicos e filosóficos, e demarcando orientações que serão cada vez mais adotadas e generalizadas. Aos poucos instaura-se o "experimentalismo", como emblema da maioridade do pensamento científico, o qual tem sido, desde então, imitado por cientistas sociais, entusiasmados com a "indução quantitativa", a busca da "objetividade", o ideal da ciência rigorosa, madura ou dura, mas que se esquecem que o mundo sociocultural e político-econômico, ou histórico, articula-se dialeticamente, envolvendo atividades físicas e espirituais, a práxis humana, individual e coletiva. Essas demarcações têm sido uma vigorosa tendência e muitas vezes uma obsessão de filósofos, de cientistas dedicados à "natureza" e à "sociedade", bem como de escritores e de outros artistas. São muitas as criações de uns e outros, nas quais se marcam e demarcam as diferenças e as fronteiras, além das especificidades de cada linguagem, sistema de conceitos, conjuntos de metáforas, categorias e alegorias, compreendendo escolas e tradições, influências e filiações, e compondo um vasto painel de narrativas em diferentes estilos. Daí a crescente e generalizada subdivisão de "áreas", "setores", "campos", "especializações". Nas ciências sociais, bem como nas ciências naturais e até mesmo na filosofia, multiplicam-se as especialidades e os especialistas, de tal modo que se formam intelectuais sofisticadíssimos e altamente competentes em algum fragmento da realidade ou fímbria do 1.Ver também Habermas (2002) .
doi:10.1590/s0103-20702004000100001 fatcat:yk2s2kuk6ngerf7nk5i6i6tc4y