SOBRE A ORIGEM DO MAL

J Macedo
unpublished
56 Foi-me proposto discorrer sobre origem do mal, sobretudo no pensamento português. No âmbito desse tema, referirei a obra de Teixeira de Pascoaes muito em especial. Mas antes creio necessário fazer uma série de considerações sobre o que foi durante muito tempo considerado a origem do mal, ou seja, o pecado original. Nesse pressuposto, uma grande parte do que trago para discussão é sobre o pecado original. Toda a filosofia está marcada pelo problema da origem do mal. Mas sob a mesma designação
more » ... a mesma designação de "mal" cabem muitos tipos de mal-o mal físico, o mal psíquico e também o mal moral-que em geral não distinguimos entre si, mas são completamente diferentes. É interessante começar por notar que, no passado, os grandes mitos explicativos do mal físico e do sofrimento, e até da morte, justificavam a origem do mal com uma transgressão, especificamente uma transgressão moral. Essa transgressão, naturalmente seguida de castigo, era prévia a tudo o que dela advinha. Veja-se o caso, por exemplo, de Prometeu, que transgride moralmente, porque rouba o fogo aos deuses para o oferecer aos homens. Só por essa razão é punido, amarrado a uma rocha do Cáucaso. A mesma sequência acontece no mito do pecado original, tal como é contado no Génesis. Todavia, se atentarmos bem, há no Génesis um delito moral de duplo efeito, por assim dizer, já que é uma desobediência, uma transgressão, que não só tem um castigo, como um castigo com múltiplas consequências e castigos. Na estrutura espacial do mito, o castigo divino tem vários graus. Num primeiro grau, mais óbvio, poderíamos dizer que a expulsão do Paraíso é o resultado da transgressão; ou que o castigo dado por Deus a Adão e a Virago/Eva foi uma consequência natural da sua desobediência, segundo regras estabelecidas previamente, que não deixaram de ser sancionadas por Deus, o único que podia saná-las. Um segundo grau se pode ainda conceber: aquele em que a própria transgressão já é, por si só, punitiva para Adão e Eva, sendo o conhecimento da sua nudez um primeiro sinal da perda de inocência, e desta forma um grau maior, digamos assim, dessa consciência do castigo. Um terceiro grau interpretativo porém se instaura: o pecado original. E, no entanto, ele é o único que não está realmente na linguagem de Jeová. Na verdade, quando Jeová expulsa Adão e Virago/Eva do Paraíso, condena-os apenas a males físicos, quando muito a males psicológicos: Adão e os descendentes comerão o pão com o suor do rosto, ou seja, têm de passar a trabalhar para comer; a mulher, Virago que passará a Eva, parirá com dor, e se submeterá ao marido. Seja qual for a maneira de interpretar esta sujeição, sempre se tratam afinal de males físicos ou males psíquicos. O que não aparece nunca no texto, muito menos pela boca de Jeová, é que Ele tenha dito que, em consequência e por castigo, Adão e a sua descendência nasceriam para sempre pecadores. Ora é precisamente esta noção de "pecado original" que podemos ler indelevelmente na filosofia (ocidental). Comecei por dizer que a filosofia se preocupou desde cedo com a origem do mal: é próprio da filosofia, primeiro, definir o que é o mal e, em seguida, averiguar a sua origem. Mas a filosofia europeia, mais do que ocupada com o conceito do mal, está preocupada com o conceito de pecado original. E não só é nela recorrente a ideia de "pecado original", como também a ideia, de inspiração paulina-augustiniana, assim podíamos dizer, da transmissão do pecado. A ideia de que todos pecamos em Adão acaba por exigir que a razão se debruce sobre ela, que ilumine, esclareça, este absurdo. Os teólogos cristãos-e quando digo "cristãos" refiro-me a todas as formas de cristianismo,
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