Experiências linguísticas e sexuais não hegemônicas: um estudo das narrativas de surdos homossexuais [thesis]

Fabrício Santos Dias de Abreu
AGRADECIMENTOS Ao ler teses e dissertações, sempre tive uma especial predileção em iniciar pelos agradecimentos. Era como se naquela parte o autor se mostrasse integralmente em essencialidade e amorosidade. O texto rígido e métrico ali se transmudava e dava lugar a emergência de afetos e humanidades carregados de sentidos e significados. Agora é minha vez de regraciar aqueles que, de diversas formas, me sustentaram ao longo do mestrado. Louvo ter a quem agradecer e o que agradecer! Exalto
more » ... decer! Exalto aquele que, no seio de sua infinita misericórdia, me gerou e, na materialidade da dor do outro, me ensina a ser humano; E que na nossa relação me mostra que "Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca" (Pessoa, 2014, p. 86). A Arlete e Bernardino, que, nos laços do amor, me fortalecem e me mostram a essencialidade da vida. A vocês, meu amor mais verdadeiro. A Thiago, por deixar tudo menos solitário e ter me dado a oportunidade de ter um irmão que, além de sangue, é de alma. Àquela que, entre tantas outras coisas, me ensinou a arte de contestar e inquietar. No labor da pesquisa e da escrita acadêmica, pacientemente, tal como uma tecelã no seu ofício, me formou a partir de sua generosidade, firmeza amorosa e competência. Ao vê-la professora, me fiz professor! À Daniele Nunes, minha eterna admiração e gratidão pela companhia segura nas travessias. viii Ao Geovanni Guilherme Timbó, meu Gui, amigo-irmão que, com seu espírito sem limites, muito me ensina; e que, em cada (re)encontro, fortalece as afinidades e faz com que as águas do Rio de Janeiro se banhem em afetos e sentidos. À Marina Costa, amiga-parceira, pelas inspirações que sustentam, pelo privilégio da convivência, por ter deixado o samba menos solitário e, principalmente, pelo dom de deixar "tudo aceso em mim (...), tudo assim tão claro (...), tudo brilhando em mim". Aos amigos Beatriz Pinho, Remy Santos, Getúlio Alves, Taís Duarte, Patrícia Osadón e Martita Ghirlanda, pelas palavras que desanuviam e o cuidado que sereniza. Às professoras Maria Carmem Tacca, Maria Cláudia Oliveira, Silviane Barbatto, Lúcia Pulino e Regina Pedroza, partícipes da construção desta dissertação, por despertarem em mim a paixão pelo conhecer. Às colegas do grupo de pesquisa Diálogos em Psicologia (Andressa, Angélica, Cândida, Eva, Raquel, Fabiana e Janice), pelo entrelaçamento de afetos e teorias e pelo congregar de utopias que impulsionam o caminhar. Aos meus alunos, que no encontro alteritário (e desafiador) da sala de aula me (re)fazem professor. Meu carinho a todas essas vidas que se entrecruzaram com a minha no espaço-tempo da sala de aula e que, na troca de saberes e na potencialidade do afeto, me constituíram docente. Às professoras Lavínia Magiolino, Maria Cláudia Oliveira e Gabriela Mieto, pela generosidade em participar da banca examinadora deste trabalho. A Keilla Vila Flor, Gustavo Lopes e Wesley Felipe, pelos auxílios (tão necessários!) com a pesquisa. Aos primos queridos Ênio, Emily e Emerson, pela torcida constante e pelo apoio. Aos sujeitos da pesquisa, pela disponibilidade gentil em participar do estudo. ix Ao Juliano Leandro, pelos encantamentos e por me mostrar que "de repente tudo ficou de pé eternamente, a floresta, a pedra, o vento vertical do abismo...". Às professoras da área do Deficiência Múltipla do Centro de Ensino Especial 01 de Taguatinga por injetar alegrias ao meu cansaço. A todos, muito obrigado! Em cada entrelinha deste trabalho tem um sopro de vida dado a mim por cada um de vocês. "Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema Presente eu fui levar E nada pedi, entreguei ao mar (e nada pedi) Me molhei no mar (e nada pedi) só agradeci". x RESUMO Este trabalho, que tem como base os fundamentos teórico-metodológicos da Perspectiva Histórico-Cultural, propõe articular discussões sobre o desenvolvimento humano atípico e a diversidade sexual a partir de uma pesquisa com surdos homossexuais. A produção de conhecimento sobre a sexualidade das pessoas surdas é escassa e muitas vezes não problematiza assuntos voltados às orientações afetivo-sexuais destoantes do padrão hegemônico. As raras iniciativas de abordagem do tema focam a dimensão biológica e preventiva, voltada para a heterossexualidade, deixando de lado uma série de fatores relacionados à amplitude conceitual de sexualidade. Tais questões apontam para a necessidade de ampliação das investigações sobre essa temática, bem como sua interface com as políticas públicas de assistência e educação ofertadas pelo Estado. O foco desta investigação se ateve em analisar o que narram jovens surdos homossexuais masculinos proficientes em Língua Brasileira de Sinais sobre suas experiências afetivas e sexuais em uma trajetória linguística não hegemônica. O percurso metodológico foi traçado segundo o materialismo histórico-dialético, e a composição de narrativas por meio de entrevistas semiestruturadas foi o recurso utilizado para a construção dos dados. Participaram do estudo três homens surdos, entre 20 e 26 anos, cisgêneros, pertencentes à classe média e residentes na região Centro-Oeste do Brasil, que assumem uma identidade bilíngue e se autodeclaram homossexuais. Com base na transcrição e no agrupamento temático dos dados, foram definidas duas categorias analíticas em resposta aos objetivos do estudo: a) narrativas sobre a primeira experiência sexual e b) a configuração (dramática) das trajetórias afetivosexuais de surdos homossexuais. As análises apontam que na relação eu-outro, marcada por regulações e parcerias, os sujeitos vão coconstruindo sua orientação sexual e suas dinâmicas afetivas. Para o estabelecimento de tais dinâmicas, a língua ocupa lugar central. Dessa forma, os surdos homossexuais preferem viver relações afetivas e sexuais com parceiros que comungam o mesmo sistema linguístico. Contudo, quando a relação afetivo-sexual ocorre com ouvintes, os surdos precisam traçar estratégias comunicativas particulares. Nessa linha, o uso de recursos tecnológicos se configura como um meio que facilita a comunicação e as aproximações iniciais entre surdos e ouvintes até o momento em que a surdez é revelada. Após a revelação, o ouvinte tende a se afastar do surdo e rompe o vínculo virtual estabelecido. Essa situação evidencia que esse grupo minoritário ainda é visto sob a lógica do defeitoalguém que precisa ser normal, respondendo a um modelo hegemônico que tende a padronizar os sujeitos dentro de categorias fixas de desenvolvimento humano, língua e expressão sexual. Palavras-chave: surdez; homossexualidade; perspectiva histórico-cultural. xi ABSTRACT The present work intended to link discussions on atypical human development and sexual diversity from a survey of deaf homosexuals, based on the theoretical and methodological foundations of historical-cultural perspective. Scientific knowledge about the sexuality of deaf is scarce and often not discusses affective and sexual orientations which clashes with the hegemonic standard. Initiatives which deal with elements regarding the subject are rare and mostly focused on biological and preventive approach, and heterosexuality, leaving aside various factors related to the conceptual breadth of sexuality. These issues point to the need for more research on this topic as well as its interface with the public policies of assistance and education offered by the government. This research aimed to analyze the narratives of young deaf homosexual males proficient in Brazilian Sign Language (Libras) about their affective and sexual experiences from a non-hegemonic linguistic trajectory. The methodological approach was drawn from the historical and dialectical materialism and semi-structured interviews was the resource used for the composition of data. Participants were composed by three (03) deaf men, cisgender, from middle class, living in the Midwest region of Brazil, aged between 20-26 years old, who take a bilingual identity and declared themselves homosexual. From the transcript and thematic grouping of data two analytical categories were defined in regards to the study objectives: a) narratives about the first sexual experience and b) the (dramatic) configuration of affective trajectories of gay deaf. Analyzes indicated that subjects construct their sexual orientation and their affective dynamics from their relation with others, marked by regulations and partnerships. For the establishment of such dynamics, language plays a central role. Thus, deaf homosexuals prefer to live their emotional and sexual relationships with partners who share the same linguistic system. However, when affective and sexual relationships occur with listeners, the deaf need to draw particular communication strategies. Along these lines, the use of technological resources are configured as a mean to facilitate communication and initial approaches between deaf and listeners until deafness is revealed to the listener interlocutor. After that, the listener tends to move away from the deaf and breaks the virtual connection established. This situation shows that this minority is still seen from the defect logic; someone who needs to be normal, responding to a hegemonic model that tends to standardize the subject within fixed categories of human development, language and sexual expression.
doi:10.26512/2015.08.d.18646 fatcat:mlqwlunsk5bypiyprwf76sprcq