Peregrinação e memória nos relatos de naufrágios

Angélica Madeira
2010 Metamorfoses - Revista de Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros  
A oportunidade de apresentar algumas idéias de uma pesquisa realizada sobre a História Trágico-Marítima levou-me a fazer alguns recortes que permitissem abordar o tema da Peregrinação nos relatos de naufrágio. Na primeira parte, serão trazidas informações mais gerais, levantados os aspectos considerados relevantes para a leitura da cultura e da história a partir da superfície textual densa e complexa daquelas narrativas. A segunda parte, mais pontual, tratará da dimensão estética dos textos,
more » ... tica dos textos, seus recursos sintáticos e retóricos, o rico repertório de imagens alegóricas de forte teor poético e dramático, em tudo prenunciadoras da estética barroca. Apesar do trânsito entre a Literatura, a História e a Sociologia, exigência posta pelo modo mesmo como o objeto de estudos foi construído, a concepção de trans-disciplinaridade que dá sustentação a essas reflexões não conduziu a um apagamento de limites entre as disciplinas mas sim a uma apropriação seletiva de conceitos que trouxeram maior inteligibilidade à obra. A História Trágico-Marítima começou a ser vista como um todo, um amálgama, histórico, estético e ideológico, um monumento, uma série discursiva que emergiu em Portugal simultaneamente ao declínio da expansão do comércio marítimo português. Uma obra assim apresentava um grande interesse para a pesquisa e, por meio de seu estudo, poderia acrescentar perspectivas novas à área da Sociologia histórica, de forte base textual e documental, e propor novos nexos entre estudos literários sociedade e cultura. A História Trágico-Marítima é uma coletânea de 12 relatos de naufrágio da segunda metade do XVI e início do XVII, compilados por um historiador português setecentista, Bernardo Gomes de Brito, e publicados em 2 volumes, em Lisboa, em 1735 e 1736. Esta informação é importante porque ela põe em evidência um ponto de método: tratava-se de considerar duas configurações históricas distintas, o século XVI, quando os relatos foram escritos e divulgados separadamente; e o século XVIII, quando foram compilados e publicados em formato de livros. Originalmente os relatos existiam sob forma de libretos soltos, como o nosso cordel, só que em prosa, um tipo de prosa muito híbrida, uma literatura fora dos gêneros canônicos, razão pela qual muitos se perderam, restando apenas esses exemplares recolhidos por Gomes de Brito. A hipótese de que houvesse ainda algumas dezenas deles faz sentido pela intenção original do historiador de publicar 5 volumes, embora só dois tivessem vindo a prelo, provavelmente pelas
doi:10.35520/metamorfoses.2010.v10n2a21817 fatcat:fcsthghu75f53cvdllqdfwrv4y