Pretos, índios e judeus nos sermões de Vieira

Cleonice Berardinelli
2008 Metamorfoses - Revista de Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros  
RESUMO: O texto busca destacar, da extensa gama de assuntos abordados nos sermões de Vieira, aqueles em que este assume a defesa de três classes marginalizadas e injustamente tratadas: os pretos (assim chamados por ele, sem traço, por mínimo que seja, de desdém), os índios e os judeus -as duas primeiras escravizadas aos que tinham o poder, a terceira, expulsa da pátria, metida na prisão ou submetida a autos-de-fé. Estes últimos comparecem, exclusivamente, na Proposição ao rei D. João IV,
more » ... D. João IV, obra-prima de astúcia verbal. PALAVRAS-CHAVE: pretos, índios, judeus, sermões, Vieira. RÉSUMÉ: Le texte cherche à dégager, parmi l'immense variété de sujets traités dans les sermoens de Vieira, ceux où leur auteur s'impose la défense de trois classes maltraitées et mises en marge par la société de son temps: les nègres (ainsi nommés par Vieira sans aucune trace de dédain), les indiens et les juifs -les deux premières devenues esclaves de ceux qui avaient le pouvoir, la troisième, expulsée de la patrie, emprisonnée et souvent soumise aux autodafés. Les Juifs n' interviennent que dans la Proposition au roi Don Joao IV, oeuvre magistrale du génie verbal de Vieira MOTS-CLÉ: nègres, indiens, juifs, sermoens, Vieira. Quando meu grande Amigo, Dr. João Pedro Garcia, Diretor do Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, me convidou a participar da celebração do 4.º centenário do Padre António Vieira, neste ano de 2008, confesso que a minha alegria foi como que mesclada por um acentuado temor: eu deveria falar sobre um autor que sempre amei, mas de um amor um pouco à distância -Vieira. A responsabilidade era tanta, que me perguntei se poderia esquivar-me, alegando uma verdade incontestável: não sou, nunca me arvorei em ser uma profunda conhecedora do grande pregador. Como professora de Literatura Portuguesa há mais de meio século na UFRJ, há quase meio século na Universidade Católica do Rio de Janeiro -ou, somando os tempos, há mais de 100 anos -, é claro que muitas vezes dei aulas sobre a sua obra admirável, privilegiando alguns de seus sermões, procurando imprimir à minha leitura algo do que imagino ser a sua extraordinária maneira de dizer, de captar a atenção do auditório, maravilhando-o, conduzindo-o aonde quer, levando-o por dificultosos, às vezes ínvios caminhos, fazendo-o raciocinar por conta própria, mas quase obrigando-o a aceitar os argumentos que lhe apresenta com inexcedível * Professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio e membro do Conselho da Cátedra Jorge de Sena da UFRJ. Esta conferência foi pronunciada com pequenas alterações na Academia Brasileira de Letras em Maio de 2008 e em francês na Fundação Calouste Gulbenkian de Paris.
doi:10.35520/metamorfoses.2008.v9n1a21788 fatcat:bb2kzkmzwff27mmm546cvvfmsu