Carlos Lessa - Celso Furtado e a história da periferia mundial [chapter]

José Luciano Albino Barbosa, Ivo Marcos Theis, Cidoval Morais de Sousa
2020 Celso Furtado: a esperança militante (Depoimentos): vol. 2  
Celso Furtado e a história da periferia mundial. In: Celso Furtado: a esperança militante (Depoimentos): vol. 2 [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2020, pp. 378-392. Projeto editorial 100 anos de Celso Furtado collection. ISBN: 978-65-86221-11-4. https://doi.org/10.7476/9786586221671.0020. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é
more » ... ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribição 4.0. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento 4.0. 378 Carlos Lessa Certamente ninguém espera que haja, pelo neoliberalismo, uma abertura do mercado de trabalho mundial aos nossos excedentes de força de trabalho, nem que se faça qualquer sugestão, mesmo remota, de que o investimento do exterior é que irá dinamizar espontaneamente a periferia. Não é por aí. É pela nação ou não é pela nação. O que me angustia é que a nação está sendo desconstruída, e, ao mesmo tempo, no plano cultural, a ideia da república vai sendo devastada, porque o espaço da mercadoria vai atravessando, cada vez mais, os níveis que antes eram imaginados como níveis e espaços reservados à república. Foto: Banco de dados e imagens do Projeto 100 anos de Celso Furtado 379 Celso Furtado e a história da periferia mundial O economista carioca Carlos Lessa (1936 -2020) 1 costumava dizer que Celso Furtado foi, para ele, a sua descoberta de Brasil. Filho de historiador, orgulhava-se de sua boa formação doméstica em história brasileira. Porém, ao ingressar na faculdade de economia na antiga Universidade do Brasil (hoje UFRJ), o Brasil "praticamente desapareceu de pauta". Lembra, em uma de suas muitas entrevistas que, acompanhado de um grupo de colegas estudantes, procurou um famoso economista da época (se recusa a citar o nome) e perguntou-lhe qual era o maior problema do Brasil. A resposta veio dura e seca: só existe um -a inflação. Não havia, no curso de economia daquela época (final dos anos 1950), referências à economia brasileira e nem mesmo a seus problemas. Foi aí que, já bem perto de se graduar, encontrou numa livraria um livro de capa vermelha com o título de Formação Econômica do Brasil, de autoria de Celso Furtado, publicado pela Editora Fundo de Cultura, em primeira edição. Não teve dúvidas: comprou. "De repente um monte de informações que até então estavam espalhadas começaram a encontrar lugar e a fazer sentido", relembra. O impacto da obra sobre a formação de Lessa, como ele mesmo sinaliza, foi incomensurável, "um raio de luz" em sua vida (EARP, 2010). Do grupo inicial de fundadores da Cepal, Furtado foi aquele que, segundo Lessa, deu "o salto de interrogação mais ambicioso depois da interrogação inicial". Ora, se a interrogação inicial era como explicar a periferia subdesenvolvida do mundo, Furtado inovou refletindo sobre a dinâmica interna de cada país. Se os pioneiros da Cepal levaram a reflexão sobre a dialética centro-periferia às últimas consequências, Furtado foi além:
doi:10.7476/9786586221671.0020 fatcat:uf3uh73ljraujeijmndel2iiuy