O PENSAMENTO DO SINGULAR EM ESPINOSA E LEIBNIZ: ENTRE A DETERMINAÇÃO E A EXPRESSÃO *

Mariana De Gainza
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* Este texto é uma versão modificada e traduzida para o português de um texto em espanhol apresentado no SEGUNDO COLOQUIO INTERNACIONAL SPINOZA, e publicado em: TATIÁN, Diego (Comp.). Círculo Spinoziano de la Argentina-Spinoza: Segundo Coloquio. Córdoba (Argentina): Altamira, 2006. N uma de suas aulas sobre Leibniz, Gilles Deleuze nos apresenta o Deus leibniziano como um ser ao mesmo tempo lúdico e cruel 1. Deus cria o mundo calculando, do mesmo modo em que um jogador experto planeja seus
more » ... ntos. E os jogos que este Deus prefere exigem sutileza para a medida, idoneidade arquitetônica e inteligência estratégica: o xadrez seria o melhor representante das preferências recreativas divinas. Não obstante, para compreender melhor a forma particular em que este Deus se relaciona com sua criação, resulta mais ilustrativo considerar aqueles jogos de engenho que consistem em cobrir uma superfície dada combinando um conjunto de figuras diferentes. Em tais jogos, o objetivo é conseguir a cobertura perfeita do plano ou, o que é o mesmo, reduzir ao mínimo o espaço vazio fazendo com que as peças de formas diversas se encaixem perfeitamente entre si. Assim, pode perceber-se-segundo a imagem que nos propõe o filósofo francês-qual é o melhor dos mundos possíveis para Leibniz: o melhor mundo é aquele que Deus escolhe por ser o mais cheio, quer dizer, aquele que lhe permite realizar o objetivo do jogo, obter um máximo de continuidade entre seus elementos constitutivos. Ora, por que Deleuze nos diz que esse Deus que cria o mundo jogando é um Deus cruel? Por que o adjetivo "lúdico"-que tenderíamos a associar com certas propriedades ou atributos divinos como a potência livre e a inteligência-não alcança para caracterizá-lo, e tem que anexar-se crueldade a seu engenho? A crueldade deriva, precisamente, da regra fundamental do jogo, isto é, do critério que orienta a eleição de Deus: o melhor mundo entre os infinitos possíveis é o mais contínuo, e não aquele onde não existe a dor ou onde o sofrimento é menor. Mas então, devemos nos perguntar que significa, para Leibniz, que o mundo seja contínuo. Como interpretar um dos princípios fundamentais de seu sistema, a "lei da continuidade"? A Lei da Continuidade estabelece, precisamente, que a natureza nunca salta. Não existem hiatos na natureza, não existe no mundo descontinuidade alguma nem vazio. Ou, como diz Leibniz numa carta a Varignon: tudo no universo está ligado em virtude de razões metafísicas, de tal maneira que "il règne une parfaite continuité dans l'ordre des successifs, ainsi il en règne une pareille dans celui des simultanés, laquelle établit le plein réel et renvoie aux régions imaginaires les espaces vides". 2 Entretanto, se considerarmos a centralidade de outro princípio defendido por Leibniz, o dos indiscerníveis (que estabelece que não há duas coisas que sejam totalmente iguais, pois até entre duas gotas de água-para citar o exemplo clássico-tem que haver uma diferença interna ou qualitativa em virtude da qual suas noções se distinguem) 3 , devemos assumir que a continuidade se dá necessariamente entre heterogêneos: o mundo perfeitamente contínuo está composto de uma infinidade de entes individuais e de fenômenos singulares de uma diversidade em princípio irredutível. Daí que seja necessário garantir de alguma forma a absoluta compatibilidade de seres e acontecimentos diferentes, que se articulam tanto na "ordem da sucessão" quanto no da "simultaneidade".
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