ÓRgÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PORTUgUESA DE REUMATOLOgIA 206 Uma reflexão sobre o ensino da Reumatologia

Fonseca Je
2017 ACTA REUMATOL PORT   unpublished
cos e a principal causa de prescrição crónica de fárma-cos 6-8. Estes achados foram reforçados pelo recente es-tudo epidemiológico nacional, EpiReumaPt 9. Apesar deste enorme impacto epidemiológico, as Fa-culdades de Medicina Europeias tendem a ter uma for-mação deficitária nestas patologias e é ainda possível terminar uma licenciatura médica sem um treino efeti-vo nesta área. Esta formação limitada tem consequên-cias nefastas, que se revelam na forma inadequada e tardia como são diagnosticadas
more » ... são diagnosticadas as doenças reumáticas, com implicações negativas no seu prognóstico. O ensino/aprendizagem em Reumatologia deve transmitir factos fundamentais, mas principalmente in-cutir atitudes corretas e competências que garantam o diagnóstico adequado destas doenças. Por isso, as com-petências exigidas devem fugir ao detalhe excessivo do exame do aparelho locomotor convencional, e oferecer ao aluno os conceitos/manobras-chave para o diagnós-tico das patologias reumáticas mais frequentes. Esta abordagem foi reconhecida por um painel de especia-listas que sugeriu um conjunto de 50 manobras nu-cleares que deverão ser aprendidas pelos estudantes de medicina, que designaram por Regional Examination of the Musculoske letal System 10. Nesta mesma linha de pensamento, a European League Against Rheumatism (EULAR) propôs recomenda-ções para a organização de um Curriculum básico de ensino da Reumatologia 11 que apresenta como objeti-vos gerais que um aluno, após o período de treino, seja capaz de colher a história clínica e efetuar o exame obje-tivo de um doente com sintomas do aparelho locomo-tor. Adicionalmente é sugerido que sejam adquiridos conhecimentos sobre as principais características e es-tratégia terapêutica das seguintes doenças: artrite sépti-ca e osteomielite, osteoartrose, doenças inflamatórias articulares (artrite reumatóide e espondilartrites), in-flamações periarticulares (bursites, tendinites, tenossi-novites e entesopatias), raquialgia comum, fibromialgia, polimialgia reumática, artrite microcristalina (gota e ar-trite por deposição de pirofosfato de cálcio) e lúpus eri-tematoso sistémico. Para que seja possível oferecer um ensino eficaz do O conceito do ensino médico tem evoluído muito nas últimas décadas, tendo atualmente um maior compo-nente de discussão de casos clínicos e seminários inte-rativos, frequentemente com integração das ciências básicas com o conhecimento clínico, em detrimento das aulas teóricas mais convencionais 1. Esta nova abor-dagem coincidiu com a necessidade de reduzir o nú-mero total de anos de ensino, de integrar módulos de investigação na estrutura curricular e de diversificar as patologias a que os estudantes eram classicamente ex-postos, com destaque para a doenças crónicas, como é o caso das doenças reumáticas 2. Paralelamente, o desenho dos novos programas de ensino sofreu desvios indesejáveis, tendendo a crescer em quantidade e duração, e não necessariamente em inovação 3. A Declaração de Edimburgo 4 , procurou res-ponder a alguns destes problemas, salientando que mais do que um conteúdo curricular extenso, deve pro-curar-se incutir competências profissionais, valores, ca-pacidade de autoaprendizagem e de resolução de pro-blemas concretos e conhecimentos orientados para a prevenção das doenças. A Declaração de Bolonha, efetuada em 1999, colo-cou como objetivo um Espaço Europeu de Ensino Superior estabelecido até 2010, e influenciou muito todo o Ensino Superior na Europa, particularmente o ensi-no médico 5. As reformas curriculares consequentes à Declaração de Edimburgo e no contexto do processo de Bolonha, ofereceram também a oportunidade para explorar áreas da formação médica que têm sido um pouco negligen-ciadas, como é o caso da Reumatologia. Na Europa, as doenças reumáticas são as doenças crónicas mais frequentes, as principais causadoras de incapacidade laboral temporária de longa duração e de curta duração, a principal causa de consultas do Médi-co de Família, a segunda causa de prescrição de fárma
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