António Manuel Hespanha, o Antigo Regime luso e a historiografia brasileira: notas sobre um diálogo transatlântico

Antonio Carlos Jucá de Sampaio
2020 Topoi  
Em fevereiro do ano passado, Hespanha publicou o que acabaria por ser seu último livro, Filhos da terra (2019). Não foi pensado como último e de forma alguma representa um balanço de sua obra. Representa, isso sim, o estágio fi nal de sua refl exão, e por isso nos interessa aqui. Nessa obra, ele se dedica a analisar as comunidades mestiças que compunham o que foi denominado de "Império na sombra", ou seja, aquelas que, mesmo estando fora dos domínios formais do Império, consideravam-se (e/ou
more » ... deravam-se (e/ou eram consideradas) "portuguesas". Na introdução, Hespanha revela que buscou inicialmente fazer uma análise institucional de tais comunidades, mas logo percebeu que esta era inadequada para estabelecer os traços mais característicos de sua organização e da defi nição de sua identidade. As instituições formais de governo e o direito ofi cial cediam lugar aí a "processos mais difusos de organizar e de dominar" (HESPANHA, 2019, p. 16). Em Filhos da terra temos, portanto, Hespanha transitando entre uma história institucional, com ênfase no direito, para uma outra, com forte vínculo com a antropologia. Da ênfase no político para uma maior atenção com o econômico, sobretudo sua face mercantil. Para trabalhar com os "confi ns da expansão portuguesa", o próprio historiador descentra--se. Impossível não ver aqui o resultado de um profícuo diálogo de décadas com a historiografi a desse mesmo império. O conhecimento de uma realidade muito mais complexa do que aquela existente no "reino" transformou Hespanha, mas também foi inegavelmente transformada por ele. É sobre esse diálogo, notadamente com a historiografi a brasileira, que pretendo falar aqui, numa homenagem àquele que será, ainda por longo tempo, uma referência incontornável para historiadores brasileiros dedicados aos estudos da Época Moderna. Cabe-nos uma contextualização, ainda que apressada, para entender as circunstâncias em que a obra de Hespanha foi construída. No seu caso, é preciso sublinhar inicialmente
doi:10.1590/2237-101x02104301 fatcat:nwsmjvqarngtbmdeifdz3lxkwu