Para sair do século XX. Edgar Morin

Sérgio Amad Costa
1987 RAE: Revista de Administração de Empresas  
do século XX, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. 346p. Com muita freqüência, escutamos exaltações extremadas ao progresso da humanidade. E um dos aspectos mais salientados é o prodigioso avanço tecnológico, em termos de acúmulo de conhecimento, ocorrido nos últimos tempos, sempre destacado como algo fenomenal. Entretanto. com todo o "progresso", ninguém pode deixar de verificar, na prática, que o perigo da guerra continua ameaçando a humanidade. a penúria ainda persiste em larga escala e a
more » ... larga escala e a natureza, cada vez mais, é abalada pela ação predatória do homem na sua transformação. Assim, será que avançamos multo em relação às gerações passadas? A solução para tal contexto em que vivemos é, inevitavelmente, um grande desafio polltico para a sobrevivência da própria humanidade. A política, da qual tudo depende, depende também de tudo o que depende dela. Ou seja, "o destino do mundo depende do destino polftico, que depende do destino do mundo". Com essa frase, Edgar Morin inicia seu livro, Para sair do século XX, abrindo os olhos do leitor para a real situação em que se encontra a humanidade. Trata-se de um trabalho de fôlego, como se diz nos meios acadêmicos, com reflexões sociológi· casa respeito de meios de comuniceçilo, sistemas capitalista e socialista, ideologias, doutrinas, etc. É uma avaliação geral, porém muito bem sistamatizada, da situação Resenha bibliográfica política (entendendo-a como produto e produtora das condições econômicas e sociais em todas as suas instâncias) do mundo contemporâneo. Uma parte assaz empolgante deste estudo diz respeito à análi· se dos meios de comunicação. Hoje, o que acontece em uma da· da região do mundo pode ser vis· to. no mesmo momento, em outras localidades dela extremamente distantes. Esta instantanei· dade da comunicação gera uma maior participação dos homens nos acontecimentos sociais de todo o planeta. Mas há pontos negativos nessa comunicação. Isto é, o perigo de, muito em breve, os homens conhecerem o mundo e a vida só pelo vídeo. caso ele não seja bem utilizado pela humanida· de, e terem como linguagem ape· nas a expressão desse condicio· namento: homens com ume consciência limitada por esse estar-no-mundo, estando ausentes, bem descritos pelo ficcionista polonês Jerzy Kosinski, em sua pa· rábola moderna O Vidiota. publi· ::ada em 197!l. Os lados negativos da comunicação moderna silo observados por Edgar Morln ao assinalar que, hoje, sofremos simultaneamente de subinformação e superinfor· mação, de escassez e excesso. Sua critica não se reporta apenas ao condicionamento que, porven· tura. alguns meios de comunicação. quando mal utilizados, podem gerar nos indivíduos. O autor procura salientar também as "filtragens" ne própria transmissão das noticias, que destorcem e es· condem o real. Tal contexto é verificado principalmente nos paísesditatoriais, onde há o monopólio estatal da comunicação. "A informação, num sistema totalitá· rio, não é somente uma informação governamental; é, sobretudo, uma informação governa mental totalitária. Sua característica pró· pria não é só estar sujeita à censura do Estado. de onde resulta a su· binformacão; ela reside na con· junção entre a subinformação e a formação de pseudo-informação, que dão uma imagem ideal/lendá· ria da sociedade." O ensaísta. para comprovar suas teses, trabalha com uma sé· rie de exemplos de comunicação, principal mente das realidades da União Soviética e da Polônia. destacando situações desde o perío· do do stalinismo, onde a história da União Soviética foi autenticada por fotografias truncadas, das quais desapareceram. para sempre, os rostos de Trotski, Bukha· rin e outros velhos bolchevistas condenados por Stalin. Aliás, há outros trabalhos sérios que reve· Iam esses dados da União Soviética, como, por exemplo, o livro do cientista social francês Marc Fer· ro. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação, lançado, já há uns três anos no Brasil, pela Editora lbrasa. Nas questões sobre ideologias e sistemas, Edgar Morln não faz concessões aos regimes de esquerda nem aos de direita. Suas críticas são contundentes e dirigidas a todos os lados. fundamenta· das em fatos que vêm ocorrendo neste século. Uma das passagens também interessantes deste livro é a maneira como o autor interpre· ta o socialismo real, salientando que o termo socialismo passou, atualmente, a ter uma conotação pejorativa, em virtude das distorções que, ne prática, esse sistema vem sofrendo. Por esse motivo, cumpre lembrar, alguns pensadores europeus, de tradição de es· querda, já há tempo preferem evitar o uso do termo socialismo, pois tal palavra significa, hoje, para a maioria, o regime instaurado na União Soviética e nos países si· milares, onde o que prevalece é a ditadura, o totalitarismo, privilegiando os elementos pertencentes à burocracia. É o caso, por exemplo, de Cornelius Castoriades, que, desde os fins dos anos 67
doi:10.1590/s0034-75901987000300009 fatcat:ztycc6zf7rh3rmhepht6gud6ue