Witz/Blitz: fagulhas de luz na arte romântica segundo Walter Benjamin

Elisa Ramalho Ortigão
2015 Pandaemonium Germanicum: Revista de Estudos Germanísticos  
The concept of Witz, as it appears in fragments by Friedrich Schlegel, published between 1798 and 1800, is connected to the aesthetic understanding and was revisited by Walter Benjamin in The Concept of Art Criticism in German Romanticism. Witz is part of the romantic "philosophical terminology", a moment in a critical reflection on a work of art in which sudden knowledge is given. In the work of art, Witz operates an illumination of different levels: semantically, it appears as a figure of
more » ... as a figure of style of suddenness, or as parabasis, the break that selfexplains the work. Witz, etymologically, would be a corruption of "wissen" (to know), represented by the metaphor of light. The original term Witz maintains a sound similarity to Blitz (lightning), as the knowledge that emerges into consciousness suddenly, like the lightning, a sudden illumination of the scene. Witz / Bliz are in a conceptual pair, i.e., the sound of the terms allows visual and phonetic exchanges that meet the semantic possibilities, making it a pair of opposites. Resumo: O conceito de Witz, como aparece nos fragmentos de Friedrich Schlegel, publicados entre 1798 e 1800, está ligado ao entendimento estético e foi recuperado por Walter Benjamin em O conceito de crítica de arte no romantismo alemão. O Witz faz parte da "terminologia filosófica" romântica, é um instante na reflexão crítica sobre uma obra de arte onde se dá o conhecimento súbito. O Witz opera na obra uma iluminação de diferentes níveis: semanticamente, aparece na obra como as figuras de estilo da subitaneidade, ou como parabase, a ruptura que autoexplica a obra. Witz, etimologicamente, seria uma corruptela de wissen (saber), e representado pela metáfora da luz. O termo original Witz mantém uma relação sonora com Blitz (relâmpago), é o saber que emerge à consciência subitamente, como um relâmpago, uma iluminação súbita da cena. Witz/Bliz constituem-se em um par conceitual, ou seja, a sonoridade dos termos permite um permuta visual e fonética que vem ao encontro das possibilidades semânticas, compondo um par de opostos. Palavras -chave: Este artigo apresenta as conclusões parciais de minha tese de doutorado intitulada Iluminações Profanas. Transformações do Witz romântico em iluminação profana surrealista por Walter Benjamin, defendida no Programa de Pós Graduação em Letras-Literaturas na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. 23 Ortigão, E. R. -Witz/Blitz Pandaemonium, São Paulo, v. 18, n. 26, Dez. /2015, pp. 21-45 Nos anos contemporâneos à Revolução Francesa, na cidade alemã de Jena, o pensamento filosófico, artístico e místico se torna o centro de reflexão de um grupo de jovens autores que modificaram o conceito de arte, lançando as sementes que floresceriam somente no século XX com as vanguardas. Entre esses jovens estão Fichte, os irmãos Schlegel e Novalis, que se reuniram em Jena no breve período entre os anos 1798 a 1800, e tiveram como principal veículo de divulgação de suas ideias as revistas: Lyceum, de 1797, Athenäum, publicada entre 1797 e 1798, e Ideen publicada em 1800. Ainda que convivessem por um curto espaço de tempo, os experimentos estéticos iniciados por Schlegel e seu grupo de amigos modificaram o conceito de arte. Em sua obra de 1919, O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, Walter BENJAMIN se debruça sobre a filosofia desse grupo, estudando a definição que seus autores, principalmente Friedrich Schlegel e Novalis, conferem a determinados termos. Os românticos apropriaram-se do sentido comum de determinadas palavras, tornando-as conceitos estéticos, tais como forma, ironia, reflexão e Witz 2 . Witz é definido na obra benjaminiana como o momento no qual a arte entra em contato com a forma abstrata, aquilo que Benjamin denomina de ideal das formas artísticas. Em outras palavras, Witz é o momento do encontro da arte singular com a ideia de arte. BENJAMIN afirma que o Witz engloba todos os sistemas de arte: No fundo esta teoria [do Witz] não é outra coisa que a teoria mística. Esta constitui a tentativa de chamar o sistema pelo nome, isto é, compreendê-lo de tal modo em um conceito místico individual que os contextos sistemáticos sejam incluídos nele. (BENJAMIN 2002: 54) Benjamin concebe a arte como um sistema do qual Witz seria indissociável. O termo Witz é, então, um elemento fundamental para a compreensão da crítica de arte romântica. E é na tentativa de abordá-lo em suas diversas manifestações que iremos, em seguida, buscar uma definição para o Witz romântico, entendendo sua função dentro do sistema de pensamento de Friedrich Schlegel, e a leitura que Walter Benjamin faz desse conceito. 2 Sobre as categorias estéticas românticas ver SUSUKI (1998). 24 Ortigão, E. R. -Witz/Blitz Pandaemonium, São Paulo, v. 18, n. 26, Dez. /2015, pp. 21-45 Recebido em 10/08/15 Aceito em 02/10/15
doi:10.1590/1982-883718262245 fatcat:pn6qogumd5hijiehabgpxb5h3i