"Porquê suportar o hospício quando poderias ir aos céus?" Thoreau ou uma alternativa à normose

Paulo Borges
2020 Anglo-Saxónica  
Borges, Paulo. ""Porquê suportar o hospício quando poderias ir aos céus?" Thoreau ou uma alternativa à normose". Procuramos, em diálogo com Thoreau, reflectir sobre os limites da comum percepção do mundo e a possibilidade de os superar pelo despertar da consciência. Para tanto, repensam-se os conceitos de patologia e normalidade à luz da noção de uma normalidade patológica: a "normose". Palavras-Chave: Despertar; Normalidade; Normose; Patologia; Thoreau In dialogue with Thoreau, we seek to
more » ... au, we seek to reflect on the limits of the common perception of the world and the possibility of overcoming them by the awakening of consciousness. For this purpose, the concepts of pathology and normality are rethought in light of the notion of a pathological normality: "normosis". Gostaríamos de começar este pequeno estudo e reflexão com o relato de uma história real passada com um ex-aluno que um dia chegou à aula e partilhou com visível animação o que lhe havia acontecido, há poucos minutos, no caminho para a Faculdade. Ao passar pela Avenida do Brasil, diante do Hospital Júlio de Matos, um internado chamou-o através do gradeamento do jardim e, quando o aluno se aproximou, perguntou-lhe: "Ouve lá, vocês aí dentro são muitos?". Este episódio desafia-nos a pensar quem está do lado de dentro ou de fora da dificilmente discernível fronteira entre a patologia e a normalidade, bem como o que são estas na verdade. A questão é tanto mais difícil quanto há uma forma de normalidade patológica, justamente designada como normose. Pierre Weil define-a como "o conjunto de hábitos considerados normais e que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade e à doença" (Weil at al. 15). E também, desenvolvidamente, "como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria das pessoas de uma determinada sociedade, que levam a sofrimentos, doenças e mortes", sem que os seus autores/actores tenham consciência dessa sua natureza patogénica e letal (Weil at al. 18). Jean-Yves Leloup, considerando que a existência e a evolução humana se desenvolvem entre um desejo e um medo inconscientes, o "desejo do aberto, apreendido como total presença ou plenitude" (pleroma), e o "medo do aberto, compreendido como total vacuidade, aniquilamento ou dissolução do ego" (kénosis), entende a "normose" como "a estagnação do desejo, [...] que impede o fluxo evolutivo" (Leloup, "Normose" 21). 1 A "normose" é o primeiro estado de "resistência à kénosis", enquanto "medo diante do aberto" que se pode converter em "ansiedade e angústia", na "neurose", e em "terror", na psicose (Leloup, "Normose" 22). Poderíamos aqui convocar também a visão de Ken Wilber de que cada indivíduo humano constantemente aspira ao infinito e à totalidade, como aquilo de que mais necessita, mas ao mesmo tempo padece o terror disso mesmo a que mais aspira, pois teme que seja a morte do seu sentimento de si como alguém separado. Vive assim dilacerado entre Eros e Thanatos, o desejo de plenitude e o medo da morte (Wilber 117-129).
doi:10.5334/as.11 fatcat:vztx3mkv4jeppdiwiwoidfaaia