Linguagem, tradução e experiência: reflexões em torno de Walter Benjamin e Paul Celan

Gil Baptista Ferreira
2020
Tem-se vindo a afirmar, nos tempos modernos, a percepção de que a linguagem é a dimensão constitutiva da nossa experiência de vida. Nela se define o pensamento, aí se compõem objectos e significações através da simbolização. Aí, por fim (é esta tanto a posição do interaccionismo simbólico como da hermenêutica do sujeito) se forma a unidade do indivíduo com si mesmo, impondo a abertura de fugidios e localizados feixes de entendimento com os outros. Mas daqui uma surge a questão: qual poderá ser
more » ... o: qual poderá ser a eficiência de uma objectivação discursiva, delimitada por natureza, da conversação subjectivada do indivíduo (pensamento)? Trata-se sem dúvida de um desafio que percorre, de certa forma, toda a cultura ocidental, ilustrado, entre muitos, pelo mítico Fausto, a personagem de Goethe: «Que espectáculo! Mas ai! Onde apanhar-te, natureza infinita? Não poderei eu também apertar os teus seios, de onde o céu e a terra estão suspensos? Eu quereria beber esse leite inesgotável... mas ele corre por toda a parte, inunda tudo, e debalde eu enlanguesço desejandoo!» 1 Se à luz de teorias da linguagem como, por exemplo, a de Walter Benjamin, nos damos conta de um transporte da linguagem das coisas para a linguagem humana -para a linguagem dos nomes, verificamos também que essa transposição implica reservas que não se podem dissipar nem superar (de modo universal) quando se questiona a operacionalidade dessa translação. Em grande medida próximas de uma concepção que implica linguagem e pensamento estão as relações que um polemista e jornalista austríaco da primeira metade do século XX, Karl Kraus, percebeu na linguagem. Relações que, em dado momento, descreve mesmo em termos de epopeia erótica: «Eu não domino a língua; a língua é que me domina totalmente». 2 E define, de modo precursor, a linguisticidade do pensamento: «Não a considero [à língua] servidora dos meus pensamentos. Tenho com ela uma relação que me faz 1
doi:10.34632/mathesis.2002.3876 fatcat:afk4g2wtw5hovho24dpbl2ktj4