MISTÉRIOS DA FEMINILIDADE: A RELAÇÃO MÃE E FILHA NO DIFÍCIL CAMINHO DO "TORNAR-SE MULHER"

Doris Rinaldi
2013 Estudos e Pesquisas em Psicologia  
O livro A Relação Mãe e Filha, de Malvine Zalcberg, destaca-se por abordar o tema da construção da feminilidade por um viés pouco examinado na literatura psicanalítica: o da "relação entre mãe e filha". Desde que a função paterna -operadora estrutural do Édipo, decisiva para a constituição do sujeito -teve sua importância devidamente restituída por Lacan em sua releitura da obra freudiana, a análise do lugar da mãe ou da função materna na formação subjetiva foi deixada para segundo plano pelos
more » ... egundo plano pelos psicanalistas em suas formulações teóricas. Sensível à sua experiência clínica -juntamente com o testemunho de obras da literatura, do teatro e do cinema que evidenciam a extrema relevância dessa relação para a compreensão do difícil caminho percorrido por uma menina em busca de uma identidade feminina -, Zalcberg retoma esse filão em um exercício produtivo de articulação entre teoria e clínica, através do qual constrói o seu texto. Como resultado, oferta-nos uma análise rica de exemplos e, ao mesmo tempo, rigorosa no trabalho teórico. A questão feminina ocupa um lugar especial no conjunto da obra freudiana, ao mesmo tempo impulsionador de sua produção e seu ponto de impasse. Se a psicanálise nasceu no ventre das histéricas, como diz a autora, a histeria "possibilitou não apenas a existência de uma clínica freudiana, como também o nascimento de um novo olhar sobre a feminilidade" (p. 15). A escuta das histéricas introduziu Freud nos mistérios do desejo humano, que ele procurou decifrar por diferentes caminhos, inaugurando um novo campo de saber, mas trouxe também um ponto de opacidade que se colocou, ao mesmo tempo, como limite a este saber e como causa de sua produção. Neste ponto cego, o enigma do desejo feminino desafiou Freud em toda a sua trajetória. Se no início ele buscou encontrar a chave da sexualidade feminina, ainda que reconhecendo que isso era muito mais fácil para os artistas, mais tarde ele constatou que pouco sabia sobre a vida sexual da menina, usando a metáfora do "continente negro" para referir-se ao mistério da feminilidade: "Que não nos envergonhe essa diferença; com efeito, inclusive a vida sexual da mulher adulta continua um continente desconhecido (dark continent) para a psicologia" (FREUD apud ZALCBERG, p. 25). Até o final de sua obra, Freud manteve aberta a questão sobre o desejo feminino, expresso na pergunta que dirigiu à princesa Marie Bonaparte: "O que quer a mulher, afinal?" (1925). No texto terminal, "Análise Terminável e Interminável" (1937), quando defrontou-se com os limites do trabalho analítico, localizou neste ponto de impasse o que chamou de "repúdio à feminilidade, uma parte do grande enigma do sexo"(1).
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