Uma consulta no outro domicílio

José Agostinho Santos, Interno de Medicina Geral e Familiar
2012 Revista Portuguesa de Clínica Geral  
INTRODUÇÃO N os dias de hoje, as redes sociais são cada vez mais populares como veículos de socialização que conduzem um cibernauta à facultação de opiniões, revelação de estados de humor e expressão livre da sua personalidade perante um número potencialmente grande de pessoas. 1,2 Porém, discute-se se esta socialização sem fronteiras claras não poderá corroer a barreira da privacidade individual ou grupal. 3 Existem diferentes definições publicadas de rede social cibernética, porém,
more » ... , porém, genericamente, poderá ser considerada uma estrutura social, de alicerces electrónicos, composta por pessoas conectadas que partilham princípios ou condições comuns, possibilitando relaciona-mentos horizontais entre os participantes. 1,2 Este último aspecto realça a potencialidade desta plataforma no acesso à dimensão psicossocial do indivíduo. Independentemente da polémica envolvente, as redes sociais proliferam pela internet. E não constituirão estas uma ferramenta acessível e útil na Medicina Geral e Familiar, em pleno século XXI, ao acrescentarem mais um patamar de expressão psicossocial do indivíduo? DESCRIÇÃO DO CASO Dados demográficos Ana (nome fictício) é uma jovem de 19 anos, estudante universitária na área das artes. É filha única e insere-se com a mãe Manuela (nome fictício) numa família monoparental, desde o divórcio dos pais. Os antecedentes familiares são irrelevantes para o caso. Rev Port Med Geral Fam 2012;28:188-94 188 José Agostinho Santos* Uma consulta no outro domicílio RE SU MO Introdução: É polémica e muito discutida a exposição pública de estados de humor e opiniões nas redes sociais cibernéticas, por supostamente colidir com a privacidade individual. Porém, não constituirão estas redes uma ferramenta útil para acesso ao indivíduo? Descrição do caso: Ana, 19 anos, integrada numa família monoparental, tem antecedentes de perturbação ansiosa, cuja sintomatologia começou aos 14 anos. Nessa altura, após divórcio parental, recorreu ao SU hospitalar após públicas ameaças de suicídio, interpretadas como crises histeriformes em contexto apelativo. Em Outubro/2010, vem à consulta revelando-se «feliz» e com uma relação amorosa de um ano. A mãe conta «só pensa em namorado e facebook!». Em Fevereiro/2011, é trazida pela mãe por estar chorosa desde o fim da relação amorosa há três meses e ter afirmado «morrer é a melhor solução». Questionada sobre intenção de suicídio, Ana nega. Atendendo aos antecedentes, torna-se difícil para o médico de família (MF) e para a sua mãe determinar o valor preditivo positivo da intenção de suicídio em tais palavras. Porém, uma visita ao seu perfil facebook, pelo seu MF, permite constatar que, perante a possibilidade de centralização de atenção, Ana não publicara qualquer informação desde há três meses. Tal faz consolidar a suspeita de perturbação depressiva major numa doente de risco. No seu quarto, é encontrada, posteriormente, uma embalagem contendo organofosforados. Em fase terapêutica de manutenção, Ana revela que planeara o suicídio. Comentário: Tal como uma consulta domiciliária fornece dados para um entendimento biopsicossocial, esta consulta no domicílio cibernético consistiu numa ferramenta de exploração da interacção da doente com seu meio, permitindo retirar informação relativa ao seu status na dimensão social e inferir sobre seu status na dimensão psicológica. Este caso é exemplo de que, em contextos clínicos seleccionados, as redes sociais poderão ter uma potencialidade complementar para acesso ao indivíduo. Palavras -chave: Rede Social; Medicina Familiar; Relações Médico-Paciente. relatosdecasos Rev Port Med Geral Fam 2012;28:188-94
doi:10.32385/rpmgf.v28i3.10941 fatcat:aosxfnpoabbjdfr5yeq7ezx67i