Sobre a questão do parlamentarismo

Alexandre Aranha Arbia
2021 Libertas  
Afirma-se agora, universalmente, que a questão do parlamentarismo não é uma questão de princípio, mas simplesmente tática. Apesar de sua indubitável veracidade, esta tese parece, porém, obscura em vários aspectos. Deixando de lado que dita tese é sustentada quase exclusivamente por aqueles que -praticamente -apoiam o parlamentarismo, e que, portanto, a formulação significa quase sempre uma tomada de posição a favor do parlamentarismo, com a simples constatação de que uma questão não é de
more » ... io, senão de natureza tática, diz-se certamente muito pouco. Em especial porque -como consequência da falta de uma verdadeira epistemologia socialista -a relação entre uma tática e os princípios não foi ainda absolutamente esclarecida. Sem abordar esse problema nem sequer de modo alusivo, é preciso sublinhar, no entanto, o seguinte. A tática significa a aplicação prática dos princípios determinados em forma teórica. A tática é, em consequência, o nexo de união entre a postulação de um fim e a realidade imediatamente dada. Encontra-se determinada, pois, a partir de duas perspectivas. Por um lado, 1 Publicado em Kommunismus 1/6, em 1920, este artigo, marca a posição de Lukács na discussão a respeito da atuação parlamentar, pelos comunistas, tema recorrente nos debates entre os integrantes da Terceira Internacional. Trata-se do famoso artigo atacado por Lênin, que terminou por acusar o marxismo de Lukács, na ocasião, de "esquerdista", "artificial" e "puramente verbal", sobretudo no que dizia respeito às distinções entre táticas "ofensivas" e "defensivas". Como se sabe, o ataque de Lênin impôs ao filósofo magiar a primeira autocrítica de sua fase marxista e marcou sua aproximação definitiva(s) às ideias de Lênin. 2 O texto foi traduzido a partir da edição castelhana, cuja organização, tradução e introdução couberam a Miguel Vedda e Antonino Infranca, e compõe o volume Táctica y ética. Escritos tempranos (1919)(1920)(1921)(1922)(1923)(1924)(1925)(1926)(1927)(1928)(1929). Buenos Aires: Herramienta, 2014. p. 85-95. A tradução foi realizada por Alexandre Aranha Arbia e a revisão da tradução e o cotejamento com a edição alemã coube a Ronaldo Vielmi Fortes. Os editores da revista LiberTas agradecem aos organizadores da edição castelhana, que gentilmente permitiram que a versão fosse traduzida ao português e publicada neste número.
doi:10.34019/1980-8518.2021.v21.36544 doaj:6e980e8f5ac24ed5a348e5fc941188ce fatcat:wxxxh6x3qfetzdxqvk3c7a4iqe