Paradigma interpretacionista: a busca da superação do objetivismo funcionalista nos anos 1980 e 1990

Sylvia Constant Vergara, Miguel P. Caldas
2005 RAE: Revista de Administração de Empresas  
INTRODUÇÃO Mencionou-se na introdução ao primeiro número desta série (Caldas, 2005) que os mapeamentos abrangentes do campo de estudos organizacionais revelam consistentemente que, dentre os quatro paradigmas sociológicos do modelo de Burrell e Morgan (1979), o funcionalismo -marcado pelo objetivismo e por uma sociologia focada na regulação -tem constituído por muitas décadas a "ortodoxia" na pesquisa científica da área. Também já se apontou nesta série que o funcionalismo continua a expandir
more » ... ntinua a expandir sua hegemonia até hoje no campo de estudos organizacionais, em boa parte devido à representatividade institucional do mainstream norte-americano, inclusive no Brasil, como mostram diversas revisões, mapeamentos e análises bibliométricas a esse respeito (e.g. Bertero et al., 2005; Vergara e Carvalho, 1995; Machado-da-Silva et al., 1990) . O que tais retratos da produção acadêmica brasileira deixam evidente é, por um lado, um histórico apego ao funcionalismo como fonte praticamente hegemônica de alicerce epistemológico e, por outro, focos de resistência a essa tendência que se dividem fundamentalmente em duas vertentes contrárias à predominância funcionalista: o interpretacionismo, que cresce desde o final da década de 1970, e os referencias críticos e pós-modernos, que se expandem principalmente após o final da década de 1980. Com a predominância do funcionalismo como fundação epistemológica da nossa pesquisa e da educação de docentes, produziu-se no Brasil uma geração de pesquisadores e educadores em estudos organizacionais que tiveram acesso restrito a outros paradigmas de análise organizacional, assim como menos incentivo e receptividade para aprofundar-se em descobri-los, caso a eles tivessem algum acesso. O resultado último desse alijamento pode ser visto na nossa produção científica corrente e no ensino de teoria organizacional empreendido atualmente no Brasil, com uma nítida limitação ao funcionalismo básico, tipicamente contigencialista sistêmico. Mais uma vez, honrosas exceções eram encontradas em alguns dos principais programas de pósgraduação filiados à Anpad, possivelmente pela maior facilidade de acesso a publicações estrangeiras ou a grupos de pesquisa alternativos que contataram no exterior. Graças a tais exceções, ainda se pôde ver, no Brasil dos anos 1980 e 1990, um fluxo razoável de "pesquisa alternativa" ao funcionalismo, que, mais uma vez, tendia a dividir-se entre interpretacionistas, por um lado, e críticos ou pós-modernos, por outro. O que marca a diferença entre o funcionalismo e essas duas vertentes principais que a ele se opuseram nas últimas décadas é nítido, e, mais uma vez, pode-se entendê-la pelo marco de Burrell e Morgan (1979), como discutido no primeiro número desta série e que é o seguinte: fundamentalmente, o interpretacionismo questiona o objetivismo arraigado na doutrina funcionalista, enquanto a vertente crítica combate sua inclinação à regulação e à manutenção da ordem social, ou seja, a sua falta de engajamento em prol da mudança social. Como prometido no primeiro número desta série, iremos neste e no próximo número da RAE, na seção "RAE-clássicos", dar maior divulgação e acesso justamente a essas duas vertentes, que, no contra-fluxo do funcionalismo, deram alternativas ao campo nos últi-
doi:10.1590/s0034-75902005000400006 fatcat:c7gwug5n4nf5fa5s4kzjhkdehi