Trajetória dos maus-tratos infantis: um estudo na perspectiva da psicopatologia do desenvolvimento [thesis]

Lilian Paula Degobbi Bergamo
AGRADECIMENTOS À Profa. Dra. Marina Rezende Bazon, que criou as condições para que este percurso fosse possível. Agradeço à dedicação, o acompanhamento e o compartilhamento de conhecimentos durantes esses anos. , pela participação na minha formação profissional. Obrigada por fornecerem as mais diferentes oportunidades de crescimento e desenvolvimento! Ao Prof. Dr. Carl Lacharité, pela enorme acolhida em Trois-Rivières/Québec e pelos grandes ensinamentos no plano profissional e pessoal.
more » ... e, as conversas e reuniões, sempre permeadas por um clima agradável e de escuta, contribuíram muito para formatar esse trabalho, assim como para a minha formação profissional. A todas as pessoas que me ajudaram em Trois-Rivières, à Teresa, à Lorena, à profa. Marleen, à coordenação da Maison de Familles Chemin du Roi. Ao meu marido e companheiro Anderson Luiz Zanatto, pela escuta nos momentos de aflição e alegria, e de dúvidas e certezas, e por ser sempre acreditar em mim. Foi ele, sem dúvida, que me despertou/incentivou a seguir uma trajetória, antes tão incerta, nessa nossa profissão, com a convicção de que o trabalho seria bem desenvolvido. Aproveito para pedir "desculpas" pela indisponibilidade nos feriados, finais de semana, almoços de família, churrascos, etc. Mas não tinha outro jeito! Aos meus pais, por terem sido sempre "corujas" e terem me apoiado independentemente de qual seja minha escolha. Aos meus sogros, por sempre se preocuparem comigo, e me incentivarem a seguir em frente! À minha irmã Vivian, meu irmão Paulo Henrique, e meu cunhado Leandro, pelos momentos de descontração e risos que me possibilitaram "desanuviar" um pouco! Agradeço também a escuta e os conselhos! À Juliana Martins Faleiros, Mara Silvia Pasian, Ida Leyda Martinez Avila de Mello, Eulálio Arteaga Piñon, e Marina Azôr Dib, pela amizade, incentivo e disponibilidade para ajudar. A todas as famílias que aceitaram o convite para percorrer um "caminho desconhecido", agradeço imensamente a disponibilidade e o compartilhamento de experiências boas e nem tão boas assim. À FAPESP pelo auxílio financeiro concedido, possibilitando que eu pudesse me dedicar integralmente a este trabalho. A todas as pessoas que de alguma forma, contribuíram, acreditaram e confiaram em mim durante todo esse percurso. Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida. (Fernando Pessoa -heterônimo Álvaro de Campos -Poema: "Tabacaria") RESUMO Bérgamo, L. P. D. (2011). Trajetória dos maus-tratos infantis: um estudo na perspectiva da Psicopatologia do Desenvolvimento. Tese de Doutorado, Departamento de Psicologia e Educação, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto -SP. Esta pesquisa teve por objeto de estudo o fenômeno dos maus-tratos contra crianças, norteando-se pela hipótese da existência de uma trajetória dessa problemática, caracterizada por sua continuidade no tempo, baseando-se numa articulação entre fase desenvolvimental -tipo de maltrato -tipo de consequência para a criança. Adotou-se como referencial a Psicopatologia Desenvolvimental, onde fenômeno ocorreria por problemas no sistema cuidador(es)-criançaambiente, associados a fatores de risco nos contextos "desenvolvimental" (características do cuidador e da criança), "interacional" (características da relação cuidador-criança e na família) e o "mais amplo" (características do entorno e percepção do apoio social). O objetivo geral foi verificar a existência de uma trajetória dos maus-tratos, buscando compreender sua constituição e manutenção no tempo. Especificamente, objetivou-se conhecer como os maustratos se manifestam em diferentes fases do desenvolvimento infantil e identificar as variáveis associadas, funcionando como risco ou proteção, nos três contextos. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, com delineamento transversal. Três grupos de participantes/mães foram constituídos, cujos casos foram notificados aos Conselhos Tutelares de Ribeirão Preto/SP, considerando as seguintes faixas etárias: 0-3, 4-6 ou 7-11 anos. Realizou-se um levantamento nos prontuários dos Conselhos, seguindo o critério de amostragem utilizado em estudos de casos múltiplos. Na coleta de dados, utilizou-se: (a) Questionário de Caracterização Sócio-Demográfica, visando caracterizar o cuidador, a criança, a família e o contexto em que se encontram; (b) Roteiros de Entrevista sobre o Desenvolvimento Infantil e da Interação Cuidador-Criança, visando informações sobre o desenvolvimento infantil, a interação mãe-criança e as práticas parentais adotadas, assim como sobre as situações de maus-tratos; (c) Child Behavior Checklist -CBCL, visando a obtenção de dados sobre o comportamento da criança. Referente à análise dos dados, o conjunto de informações concernente a cada caso foi estudado e analisado, observandose padrões de repetição no interior de cada um, de modo a compreender sua dinâmica e, dentro disso, os maus-tratos. Numa segunda etapa, procedeu-se à comparação dos "casos", visualizandose convergências e divergências, possibilitando a constituição de três agrupamentos, por meio dos quais chegou-se a diferentes categorias analíticas sobre o fenômeno. Uma das categorias descreve uma Trajetória persistente de dificuldades no sistema mãe-criança-ambiente -maustratos recorrentes, refletindo a continuidade dos maus-tratos no tempo e dos elementos associados à sua manutenção. Nesse sentido, encontrou-se fatores de risco estáveis nos três contextos analisados, além das crianças apresentarem problemas comportamentais significativos. A outra categoria a que se chegou é Dificuldades no sistema mãe-criança-ambiente condicionadas a determinadas circunstâncias / circunscritas no tempo -maus-tratos ocasionais, na qual os maus-tratos se manifestam devido a fatores no contexto interacional, além das crianças apresentarem alguns problemas comportamentais, geralmente internalizantes. A última categoria -Ausência de dificuldades significativas no sistema mãe-criançaambiente -ausência de maus-tratos -sintetiza as características de um grupo no qual não se identificou fatores de risco específicos, mas sim, diversos fatores de proteção. Assim, podese dizer que a hipótese estabelecida para o estudo foi comprovada. Os resultados, entretanto, trouxeram informações adicionais, indicando haver situações de maus-tratos que parecem mais circunscritas no tempo. Ainda, apresenta-se um modelo descritivo envolvendo os elementos associados à manutenção do fenômeno no tempo, bem como das características mais proeminentes em cada faixa etária, dando pistas sobre as variáveis que estão atreladas à origem dos maus-tratos e das que podem mantê-lo no tempo. Palavras-chave: Abuso infantil. Estudo qualitativo. Fatores de risco. Psicopatologia Desenvolvimental. ABSTRACT Bérgamo, L. P. D. (2011). Trajectory of child abuse: a study on Development Psychopathology perspective. Tese de Doutorado, Departamento de Psicologia e Educação, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto -SP. This research had as object of study the occurrence of child abuse, guided by the hypothesis of the existence of a trajectory to this problem, characterized by its continuity in time, based on an articulation between the development phase -type of abuse -type of consequence to the child. Developmental psychopathology was adopted as referential , in which the phenomena would occur due to problems in the system caregiver -child -environment, associated to risk factors in the context of "development" (characteristics of the caregiver and the child), "interaction" (characteristics of the relation caregiver -child and in family) and the "broader" (characteristics of the surrounding and perception of social support). The general goal was to verify the existence of a trajectory of the abuse, seeking to understand its constitution and maintenance in time. Specifically, the goal was to know how the abuse manifests in different phases of child development and identify the variables associated to them, working as risk or protection, in the three contexts. It is a research with a qualitative approach, and transversal delineation. Three groups of participants/mothers were formed, whose cases were notified to the child protection service of Ribeirão Preto/SP, considering the following ages: 0-3, 4-6 or 7-11 years old. A study of the child protection´s Record books was performed, following the sample criteria used in multiple case studies. It was used for data collection: (a) Social-demographic characterization questionnaire, to characterize the caregiver, the child, the family and the context they are in; (b) Interview routines about child development and caregiver -child interaction, to obtain information about child development, mother -child interaction and parental practices adopted, as well as abuse situations; (c) Child Behavior Checklist -CBCL, to obtain data about child behavior. Concerning data analysis, the information referring to each case was studied and analyzed, observing repetition patterns in each one, in order to understand their dynamics and the abuse in them. In a second phase a case comparison was carried out, observing divergences and convergences, enabling the constitution of three groups, by which three different analytical categories of the event were found. One of the categories describes a persistent trajectory of difficulties in the mother-child-environment -recurrent abuse, reflecting the continuity of the abuse in time and the elements associated to its maintenance. In that sense, stable risk factors were found in the three analyzed contexts, in addition, the children presented significant behavior problems. The other category found is difficulties in the mother-child-environment system conditioned to certain circumstances / limited in time -occasional abuse, in which the abuse manifests due to factors in the interactional context, in addition, the children presented some behavior problems, generally internalizing ones. The last category -Absence of significant difficulties in the mother-child-environment system -absence of abuse -summarizes the characteristics of a group in which no specific risk factors were found, but protection factors were. Therefore one may say that the hypothesis established for the study was proved. The results, however, brought additional information, indicating the existence of abuse situations that seem to be limited in time. Also, it presents a descriptive model involving the elements associated to the maintenance of the occurrence in time, as well as the most prominent characteristics of each age range, giving clues about the variables that are connected to the origin of the abuse and the ones that may sustain it in time.
doi:10.11606/t.59.2011.tde-22102013-160020 fatcat:5nrbe6kdjnbx3fam55ftr4frlu