Identidades da esquerda. O que é ser de esquerda no século XXI?

Rudá Ricci
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Resumo: Artigo reflete sobre burocratização da esquerda mundial e a emergência de uma esquerda não partidária no final do século XX. Sugere o ideário atual do que se poderia denominar de forças de esquerda no mundo e finaliza analisando a contribuição do lulismo para o debate da esquerda brasileira. Palavras-chave: política; conceito de esquerda; lulismo 1. A crise é anterior à queda do Muro de Berlim A grande imprensa patenteou e parte das lideranças de esquerda aceitou que a partir da queda
more » ... a partir da queda do Muro de Berlim a identidade das esquerdas teria desmanchado no ar. Trata-se mais de uma frase de efeito que uma análise precisa. A crise de identidade das esquerdas já havia se instalado antes. Muito antes. Primeiro, quando da crítica mundial ao burocratismo do bloco soviético, que teria criado um sistema de dominação estatal muito peculiar, fomentando a corrupção endêmica que mais tarde se perceberia espraiada pela sociedade e que foi plasmada em máfias locais. Mas a situação mais aguda da crise se deu com a ruptura entre a dimensão política e cultural, que mergulhou todo sistema partidário numa sistêmica crise de representação. Em outras palavras, com o processo radical de globalização econômica, nos deparamos com a separação das dimensões da sociedade moderna, tal como sugerido por Alain Touraine em seu livro "Poderemos Viver Juntos?" Na prática, o mundo político se agregou ao mundo econômico, não qualquer mundo econômico, mas esse globalizado. Essas duas dimensões-econômica e política-se separam, por seu turno, da dimensão cultural, da identidade cultural, dos valores, das tradições, das crenças. Trata-se de uma ruptura social das mais importantes, que deslegitima o mundo da política institucionalizada. Nesta esteira analítica, Manuel Castells, em um encontro organizado pelo então Governo Fernando Henrique Cardoso, sugere que o papel do Estado contemporâneo seria o da criação de ambiente facilitado para o trânsito do capital globalizado. Daí nomear o Estado facilitador. Justificam-se, por aí, várias políticas de estabilidade econômica para sinalização de agentes econômicos, principalmente agentes do mercado financeiro, para * Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Diretor Geral do Instituto Cultiva (www.cultiva.org.br).
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