A NOVA ESTRATÉGIA DA OTAN

Carlos Meira Mattos
1969 Revista da Escola Superior de Guerra  
Criada em 1949, quando os países do Ocidente temiam uma agressão da antiga União Soviética, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), incluiu entre seus fundadores 12 Estados, sendo 10 europeus (França, Inglaterra, Itália, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Portugal, Noruega, Islândia e Luxemburgo) e 2 americanos (Estados Unidos e Canadá). Posteriormente entraram para a OTAN, em 1952 Grécia e Turquia, em 1955 a República Federal Alemã, em 1982 a Espanha. Mais recentemente, em 1997, foram
more » ... , em 1997, foram admitidos, a Polônia, Hungria, República Tcheca e Ucrânia, todos quatro ex-membros do Pacto de Varsórvia dissolvido depois da desagregação da União Soviética. Após 40 anos de existência, a OTAN, aliança militar defensiva de proteção das democracias ocidentais do Hemisfério Norte, viu-se desestabilizada, a partir de 1989, pelo desaparecimento de sua missão defensiva, em virtude da dissolução de seu adversário o Pacto de Varsórvia liderado por Moscou. Interesses vários das grandes potências, membros da OTAN, aconselharam a manutenção da aliança militar. Para isto, em 1991, reuniram-se em Roma a fim de encontrar uma nova missão que justificasse a sua existência futura. Desta reunião saiu a reformulação de sai estratégia, ainda defensiva, visando a conter as novas ameaças visualizadas pela Aliança, quais sejam, uma possível revitalização da ameaça de Moscou, a existência de um arsenal atômico em poder da Rússia e de alguns ex-membros do antigo Pacto de Varsórvia, o terrorismo internacional e o perigo de alastramento de conflitos étnicos e regionais. Por volta de 1992 começou-se a perceber a intenção dos "grandes" da OTAN em buscarem uma nova estratégia para a Aliança Atlântica, não mais defensiva. Os sinais destas intenções foram captados pelo geopolítico e estrategista francês, Ives Lacoste, que no seu "Dictionnaire de Geopolitique" editado em 1993, escreveu: "a OTAN almeja ser um pacto dos países desenvolvidos do Norte, face aos países em via de desenvolvimento do Sul, alargando seu campo geográfico inicial de intervenção e vindo a receber, cada vez mais, as missões da ONU para atuações humanitárias e intervencionistas fora do teatro de operações da Europa Ocidental". Em abril deste ano, com uma grande comemoração de seus 50 anos de existência, a OTAN reuniu a sua cúpula em Nova York. Na véspera desta reunião, numa conferência pronunciada em Chicago, intitulada "Doutrina para a Comunidade Internacional", o Primeiro Ministro Inglês, Tony Blair, adiantou a sua proposta de nova estratégia para a Aliança. Disse o Primeiro Ministro Tony Blair: "O problema mais premente da política externa que enfrentamos (a OTAN enfrenta) é identificar as circunstân-cias nas quais devemos envolver-nos ativamente nos conflitos de outros povos. Os atos de genocídio nunca devem ser assuntos puramente internos. O princípio de não intervenção precisa ser revisto em importantes aspectos". Em outros trechos de sua "Doutrina para a Comunidade Internacional", o chefe do governo britânico generaliza os crimes contra os direitos humanos, entre os que não devem ser considerados assuntos internos, assim como manifesta a pretensão da OTAN de vir a ser considerada o braço militar da ONU, ampliando, assim, sua área geográfica de atuação. Como vemos, na sua doutrina para a OTAN, o Primeiro Ministro formaliza as intenções já reveladas em 1993 pelo internacionalista fran-
doi:10.47240/revistadaesg.v0i38.597 fatcat:mw3eyvivdbhf3odd2ozkppucci