ABUSO SEXUAL INFANTOJUVENIL: RISCOS TRAZIDOS PELO ISOLAMENTO SOCIAL E O PAPEL DA ATENÇÃO PRIMÁRIA [chapter]

Melissa Gershon, Rodrigo Moreira Garcia, Alegna Cristiane Medeiros Sobrinho, Romero Ribeiro Duque, Laís Taveira Machado
2020 SAÚDE PÚBLICA NO SÉCULO XXI: UMA ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR  
Nesse momento sanitário que o planeta encara em virtude da COVID-19, muitas vidas foram salvas pelos nossos profissionais de saúde, que não se resumem apenas pelos profissionais de medicina, mas por uma área multiprofissional que vai desde a logística até a telemedicina e cirurgia robótica. Não há dúvidas de que estes abnegados profissionais, saem todos os dias para trabalhar pela saúde dos outros, colocando a vida em risco. Hoje, com tecnologias modernas contribuindo para sua atuação, por mais
more » ... a atuação, por mais protegidos que estejam encaram o risco de contaminação constante. Além das doenças, temos agravos que trazem grande preocupação para a saúde pública. Agora os lesionados, feridos e mutilados, não veem apenas dos conflitos armados. Comunidades carentes tomadas pelo crime organizado, geram números de casos semelhantes a zonas em guerra em outras partes do mundo. E o trânsito, por meio de acidentes cada dia mais violentos, aleija, mata, incapacita ao ponto de ser considerado uma epidemia. Sem falarque, a pandemia que nos aflige, ainda traz consigo, impactos psicológicos em uma sociedade que já se encontra mentalmente adoecida. Em meio a esses desafios, cada vez mais frequentes, as ciências da saúde tentam se reinventar em meio ao orçamento curto e o aumento da demanda por seus serviços. Mas não é só por meio do cuidado com as pessoas que os profissionais da saúde podem ajudar a mudar a nossa realidade para melhor. Por meio de vários estudos científicos, publicados em artigos de periódicos e capítulos de livros, os dados se tornam informação e a partir da publicação, passam a ser conhecimento. Pois as políticas em saúde só são efetivas quando estão sobe a luz deste.E como as ciências da saúde, tem crescido a cada dia, as pesquisas ganham um reforço considerável, a análise computacional. E assim, todos os profissionais das ciências da saúde contribuem de maneira significativa para o aumento da expectativa de vida de nossa espécie, bem como dos animais domésticos. Nessa obra, o leitor vislumbrará uma miscelânea de conhecimentos, de fontes fecundas que são dos estudantes e profissionais de saúde. Em nossos livros selecionamos um dos capítulos para premiação como forma de incentivo para os autores, e entre os excelentes trabalhos selecionados para compor este livro, o premiado foi o capítulo 17, intitulado "Grupo pet-saúde interprofissionalidade: superando desafios na pandemia da RESUMO: O abuso sexual é definido como práticas sexuais sem consentimento da vítima ou pelo uso da violência. Virtualmente, crianças e adolescentes têm maior possibilidade de sofrerem alguma aliciação, sobretudo nos atuais tempos de pandemia de COVID-19. Objetivo: Esclarecer as formas de abuso sexual infantil, bem como discutir os riscos trazidos pelo isolamento social e o papel da atenção primária frente esses atos. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo na forma de revisão narrativa. O levantamento das referências para embasamento teórico foi feito nas bases de dados MEDLINE, SciELO, ScienceDirect e Google Scholar. Foram incluídos os artigos publicados no período entre 2005 a 2020. Discussão: Cerca de 1.2 bilhão de alunos em 153 países estão fora da escola devido ao fechamento das instituições de ensino para ajudar a conter o avanço do COVID-19. No Brasil, essa pausa na rotina fez com que esse grupo mais vulnerável perdesse o contato com adultos protetores. Infelizmente, estar em casa nem sempre é garantia de proteção das crianças e dos adolescentes. Outra questão preocupante nesse cenário é o aumento do tempo online, que também possibilita a maior exposição das crianças e dos adolescentes a violações, tais como o cyberbulling, o acesso à pornografia, e a aliciação através de mídias sociais para fins sexuais. Conclusão: O combate à violência sexual infantil é uma incumbência do Sistema Único de Saúde, que vai além, velando também os familiares. Em meio a esse delicado cenário, tanto a âmbito do sistema de saúde quanto a nível judicial, faz-se necessário o acolhimento cuidadoso, assim como o tratamento interdisciplinar para a eficácia da saúde física e mental da vítima e demais envolvidos. ABSTRACT: Sexual abuse is defined as sexual practices without the victim's consent or through the use of violence. Virtually, children and adolescents are more likely to suffer some solicitation, especially in the current pandemic times of COVID-19. Objective: To clarify the forms of child sexual abuse, as well as to discuss the risks brought about by social isolation and the role of primary care in face of these acts. Methodology: This is a descriptive study in the form of narrative review. The survey of references for theoretical support was carried out in the MEDLINE, SciELO, ScienceDirect and Google Scholar databases. Articles published in the period from 2005 to 2020 were included. Discussion: Approximately 1.2 billion students in 153 countries are out of school due to the closure of educational institutions to help stem the progress of COVID-19. In Brazil, this pause in routine has caused this most vulnerable group to lose contact with protective adults. Unfortunately, being at home is not always a guarantee of protection for children and adolescents. Another issue of concern in this scenario is the increase in online time, which also allows greater exposure of children and adolescents to violations, such as cyberbulling, access to pornography, and solicitation through social media for sexual purposes. Conclusion: The fight against child sexual violence is incumbent on the Unified Health System, which goes further, also watching over family members. In the midst of this delicate scenario, both within the health system and at the judicial level, there is a need for careful reception, as well as interdisciplinary treatment for the effectiveness of the physical and mental health of the victim and others involved. KEY-WORDS: Child sexual abuse. Child sexual violence. COVID-19. INTRODUÇÃO O termo "abuso sexual infantil" informa que tal prática ocorre na ocasião em que a criança não está preparada em relação ao seu nível de desenvolvimento pessoal para o ato (FORLENZA; DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2019). Manejo e abordagem do abuso infantil na atenção primária A linha do cuidado para enfrentar a violência sexual infanto-juvenil é dada através dos serviços de todas as esferas do SUS, desde a atenção primária até o maior nível de atenção e, ainda, implica em lidar com questões complexas que envolvem a moral, ideologia e cultura. O primeiro passo para o cuidado de crianças e adolescentes em situação de violência é o acolhimento, que deve ser multidisciplinar, integrado e de forma individualizada (UNICEF, 2011). Segundo a Sociedade de Pediatria de São Paulo (2011), ao entrarem em contato com a suspeita ou confirmação de uma situação de violência, os profissionais precisam levar em conta a singularidade de cada situação; saber ouvir, observar e aceitar o que a criança e o adolescente falam; manter atitude de crédito, não fazendo perguntas em demasia e sem questionar o que está sendo relatado; deixar claro que a vítima não deve se sentir culpada ou envergonhada; evitar a revitimização da criança, não fazendo com que ela repita sua narrativa várias vezes a outros profissionais; orientar a criança ou adolescente sobre todos os procedimentos que serão adotados. Frente a um caso de abuso sexual infantil, deve-se tomar as seguintes atitudes: registrar de forma detalhada todo o processo de avaliação, diagnóstico e tratamento; descrever o histórico, as palavras da criança ou adolescente, sem interpretações pessoais ou pré-julgamentos (SOCIEDADE DE PEDIATRIA DE SÃO PAULO, 2011). Segundo a Unicef (2011), um exame físico completo inclui avaliação de boca, mamas, genitais, região perineal, nádegas e ânus a procura de hiperemia, edema, hematomas, escoriações, fissuras, rupturas, sangramentos, evidências de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez. Ainda, devem-se solicitar exames complementares como pesquisas de DST e aqueles que podem ser realizados quando o abuso ocorreu há menos de 72 horas, como a pesquisa de sêmen, sangue e células epiteliais. Após uma anamnese completa, exame físico detalhado e os exames solicitados, é preciso que se faça a prevenção para algumas doenças infectocontagiosas. Segundo a Norma Técnica do Ministério da Saúde, para caso de abuso sexual, deverá ser seguida a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST) e AIDS, assim como ser prescrita a contracepção de emergência e a profilaxia para as IST (UNICEF, 2011). O abuso sexual também gera efeitos com uma ampla variedade de sintomas emocionais, incluindo medo, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e comportamentos sexuais inadequados, gerando um risco aumentado de problemas psicológicos na idade adulta. Devido a isso, tratamentos psicossociais como Terapia Cognitivo-Comportamental e psicoterápicos têm sido propostos para dar apoio às vítimas e às suas famílias sempre que necessário (HOHENDORFF; HABIGZANG; KOLLER, 2015; MACDONALD et al., 2012). De acordo com Brasil (2018), os serviços de saúde mental para estas vítimas estão inclusos no Além disso, para prevenir o abuso sexual, deve-se instituir nos lares a educação sexual a partir dos níveis primário, secundário e terciário. Na intervenção primária, os profissionais são sensibilizados para educar e informar as pessoas sobre violência sexual. Por sua vez, no nível secundário fazer a identificação e a intervenção precoce e na intervenção terciária estará voltada para o tratamento e reabilitação (GALHEIGO, 2008). CONCLUSÃO O abuso sexual é uma violência que afeta tanto o sistema público de saúde e setor judicial, como lares e famílias. Trata-se de um fator de risco para uma variedade de sequelas emocionais e comportamentais, sendo necessário o acolhimento eficaz e um tratamento multidisciplinar para a eficácia da saúde física e mental da vítima. No mais, a verdadeira incidência do abuso sexual ainda é desconhecida, devido o fato das subnotificações e da falta de denúncias. Desta forma, faz-se necessário que os profissionais de saúde notifiquem e referenciem estes pacientes para um cuidado contínuo e integral.
doi:10.47094/978-65-88958-03-2.143-150 fatcat:qeo3jrwxendz3milwi3zptpbiy