Para além do que se vê: cicatrizes da violência doméstica contra mulheres [thesis]

Flávia Meneses Duarte
mulheres que se rebelaram contra o destino biológico que lhes fora imposto e, também, àquelas que ainda irão se rebelar. AGRADECIMENTOS À Professora Lívia Mathias Simão que recebeu a mim e às minhas ideias tão embrionárias com interesse genuíno. Que ciente da minha trajetória acadêmica até então e do árduo caminho que eu teria de percorrer ao adentrar em outra área de conhecimento, depositou sua confiança em mim. Agradeço a oportunidade de ter sido sua orientanda, as valiosas críticas e
more » ... críticas e sugestões que contribuíram não apenas para o meu desenvolvimento profissional, mas, sobretudo pessoal. Foram cafezinhos, almoços, jantares e muitos outros eventos especiais ao longo desses quatro anos. Muito obrigada por tudo, Professora! E assim foi, entre erros e acertos, o ciclo de intensa aprendizagem no Franciulli, pela companhia sempre agradável. Aos Professores Danilo Guimarães e Nilson Doria, sempre dispostos a compartilhar conhecimento; que entre uma conversa e outra cooperaram de maneira muito especial para a minha formação enquanto pesquisadora e futura docente em Psicologia. Vivian Volkmer, Larissa Laskovski e Carolina Vivanco: dizer "muito obrigada" a essas pessoas é muito pouco. Elas me receberam de braços e livros abertos. Muito mais que colegas, parceiras que contribuíram e acompanharam o desenvolvimento do que seria o primeiro esboço dessa tese. Ao Kleber Nigro, pelos diálogos enriquecedores sobre as Alteridades Canibais. À Sirlene Miranda, parceira desde os tempos do mestrado que se tornou uma amiga para toda a vida. Agradecimento essencial à Branca Paperetti, coordenadora da Eliane de Grammont e toda a sua equipe. Branca acolheu o projeto desta pesquisa e abriu as portas da instituição para que eu pudesse conhecer um pouco a realidade e a rotina de um serviço tão importante para as mulheres em situação de violência doméstica. Além disso, sua participação foi fundamental na mediação e contato com as mulheres que viriam a ser as participantes da pesquisa. Às mulheres a quem entrevistei; elas aceitaram compartilhar comigo um pouco das suas histórias pessoais, apesar da dor que sabiam que iriam sentir ao tocar em um assunto tão delicado e embaraçoso. A melhor forma que encontrei para retribuir tamanha confiança foi abraçando a causa da violência de gênero, me dedicando à luta por um mundo menos desigual e mais respeitoso às mulheres. À Márcia Gerbelli, pelos ouvidos, ombros e colo. Porque a gente precisa. Obrigada, Doutora! A todos os amigos e familiares que sempre torceram por mim e me consolaram em momentos difíceis. Aos professores que participaram da minha formação como Psicóloga. Em especial àquelas mulheres que instigaram em mim o gosto pelo fazer ciência: Ana Cristina Sundfeld, Judith Cristina G. Nogueira, Eliana Isabel de M. Hamasaki, Cristina Moreira Fonseca. À CAPES, pela concessão da bolsa de doutorado. Acabei com tudo Escapei com vida Tive as roupas e os sonhos rasgados na minha saída Mas saí ferido Sufocando meu gemido Fui o alvo perfeito Muitas vezes no peito atingido (...) Animal ferido Por instinto decidido Os meus rastros desfiz Tentativa infeliz de esquecer Eu sei que flores existiram Mas que não resistiram A vendavais constantes Eu sei que as cicatrizes falam Mas as palavras calam O que eu não me esqueci Não vou mudar Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo, na alma e no coração Fera Ferida, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982 RESUMO Duarte, F. M. (2018). Para além do que se vê: cicatrizes da violência doméstica contra as mulheres. (Tese de Doutorado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. Determinadas cicatrizes são inextricavelmente ligadas a experiências de vida dolorosas; também marcam a pessoa, mas em um âmbito que excede o físico. Mulheres que sobreviveram à violência doméstica normalmente passam a conviver com repercussões de longo prazo em decorrência das agressões, e a cicatriz é uma delas. A natureza desse tipo de cicatriz denuncia ao mundo um acontecimento pessoal, doloroso e humilhante, do qual normalmente não se quer falar; assim, evita-se exibi-las de forma a não fomentar a curiosidade alheia e a rememoração da violência sofrida diante da indagação proveniente das relações eu-outro (mundo). A cicatriz é, nesse sentido, a memória corporificada de uma agressão. Convém salientar que o significado das cicatrizes nesta pesquisa não foi compreendido, exclusivamente, à marca visível na pele, mas se estendendo a demais eventos rememorados pelas entrevistadas em suas narrativas. Nesse sentido, o objetivo desta pesquisa consistiu em investigar como o passado, gravado na pele em forma de cicatrizes, afeta a perspectiva de vida de mulheres que passaram por situação de violência doméstica, especialmente, no que diz respeito à forma como a mulher passa a conceber a futuridade; e quais as repercussões físicas e psicológicas que um corpo marcado por cicatrizes traz a mulher, sobretudo, o papel das relações eu-outro (mundo) sobre o processo de significação que se dá em torno das cicatrizes. A metodologia utilizada foi de base qualitativa e idiográfica, por meio de análise e interpretação de estudos de caso. A coleta de dados se deu através de entrevistas narrativas. A análise e a interpretação das narrativas foram embasadas nos pressupostos da perspectiva construtivista semiótico-cultural em Psicologia, balizadas pelas noções filosóficas de temporalidade e alteridade. No âmbito da temporalidade, os resultados indicaram, como esperado, que a experiência de violência doméstica não se encerra quando o último golpe é deferido na mulher: ela sente a extensão das agressões do passado ao conviver com os inúmeros prejuízos vivenciados no presente, que acabam por influenciar, de forma existencialmente negativa, a sua perspectiva de futuro. As entrevistadas mais jovens agem na direção das metas, que envolvem, primordialmente, a garantia da própria segurança material, física e psicológica, bem como a dos seus dependentes, apesar das tensões frente ao desconhecido. As entrevistadas mais maduras percebem-se limitadas ou mesmo impossibilitadas à realização das metas, que abarcam o desejo por um novo relacionamento amoroso. Isso porque, no âmbito da alteridade, todas as entrevistadas apresentaram uma tendência a generalizar todos os homens com base naquele que as agrediu. Além disso, as relações eu-mundo são prejudicadas, de forma geral, na medida em que a figura do outro é a de alguém em quem não se pode confiar. Destaca-se também que a situação da pesquisa pode gerar acolhimento à mulher e à sua narrativa, muitas vezes velada por receio de crítica ou vergonha, pois, na medida em que o pesquisador se coloca como um "outro" que inspira confiança, abre possibilidades para que a mulher ressignifique a experiência de violência e abra caminho para uma eventual superação. Palavras-chave: cicatriz, violência doméstica, alteridade, temporalidade, Construtivismo Semiótico-Cultural. ABSTRACT Duarte, F. M. (2018). Beyond what is seen: scars of domestic violence against women. (Doctorate Thesis). Institute of Psychology, University of São Paulo, São Paulo. Certain scars are inextricably linked to painful life experiences; it also mark the person, but in a way that exceeds physical limits. Women who have survived domestic violence usually has to deal with long-term repercussions because of the aggressionand the scar is just one of them. The nature of this type of scar reveals to the world a personal, painful and humiliating event, of which one does not normally want to speak about; women avoid showing them to inhibit others curiosity and the remembrance of the violence suffered due to the inquiry coming from the other-world relations. The scar is, in a way, the embodied memory of an aggression. It should be noted that the meaning of the scars in this research was not understood exclusively by visible marks on the skin, but leading to other events brought by the interviewees in their narratives. The purpose of the research was to investigate how the past, marked as scars in the skin, affects life perspectives in a woman who lived domestic violence experiences, especially, regarding the way women conceive futurity; and what are the physical and psychological repercussions that a body marked by scars has on a woman"s life, above all, the role of I-other relations (world) on the process of meaning that occurs considering the scars. We used a qualitative and idiographic methodology, by analysis and interpretation of case studies, The data were composed by narrative interviews. The analysis and interpretation of the narratives were based on the theories of the semiotic-cultural constructivist perspective in Psychology, defined by the philosophical notions of temporality and otherness. In the scope of temporality, the results indicate, as expected, that the aggressions do not end with the last assault suffered by the woman, who feels the consequences of those past aggressions by living with the innumerable losses experienced in the present that end up influencing, in an existentially negative way, her perspective on the future. Younger interviewees are moving towards their goals, which primarily include ensuring their own material, physical and psychological security, as well as of their dependents, despite tensions with the unknown. More mature interviewees perceive themselves limited or even disabled to achieve the goals, which involve the desire of a new relationship. This is because, in the context of alterity, all interviewees showed a tendency to generalize all men based on the one who attacked them. Besides, I-world relations are generally impaired, since the figure of the other is the one not be trusted. It is also worth noting that the research situation can generate a welcome to the woman and her narrative, often veiled by fear of criticism or shame, because, as long as the researcher behaves as a reliable other, it can enable the woman to re-signify the experience and open the way for an eventual overcoming.
doi:10.11606/t.47.2019.tde-01042019-093632 fatcat:xkkkbzma4ncxzlcx2fxty7gat4