A interseção entre o "óbvio" e o "público catalisado" através do domínio de mediatização das culturas cívicas

Maria Francesca Murru
2013 Revista Comunicação e Sociedade  
A interseção entre o "óbvio" e o "público catalisado" através do domínio de mediatização das culturas cívicas . Maria Francesca Murru diálogo deliberativo. Se as fronteiras entre o público e o privado, e, consequentemente, entre as opiniões relativamente à boa vida e os argumentos sobre justiça e verdade, são, não ontológicos, mas, antes, profundamente culturais e construídos discursivamente, só poderá assegurar-se uma total revelação da democracia recorrendo à proliferação de vozes
more » ... e vozes alternativas numa esfera pública culturalmente inclusiva. Deste ponto de vista, a qualidade da participação política surge intimamente ligada a questões de "cidadania cultural", considerada enquanto noção que associa questões de pertença, direitos e responsabilidades a questões de poder cultural, de controlo sobre o fluxo de informações, significados e estratégias ideológicas poderosas (Stevenson, 2005). No seio desse modelo de esfera pública culturalmente orientado, onde a cidadania cultural assume o lugar da racionalidade, é possível julgar novas formas de envolvimento, tornadas possíveis pelas aplicações interativas e participativas da Web 2.0, quanto à sua contribuição para a revitalização da participação pública e cultural. As tecnologias da comunicação digitais incluem, na sua configuração material, um enorme potencial de participação, interação e produção colaborativa de conteúdos. Os custos extremamente reduzidos de produção e distribuição de conteúdos através da plataforma Web permitem, potencialmente, a todos os utilizadores assumir o papel de falantes, dando forma à sua própria reputação através de uma economia de atenção heterárquica, potencialmente livre de qualquer lógica comercial e de qualquer tipo de controlo político. A lógica de base da Web 2.0 assenta, sobretudo, no processamento da combinação da criação ativa de conteúdos para os média (da mistura intertextual de conteúdos dos média preexistentes à produção de conteúdos novos e originais) com práticas de comunicação interpessoal através das redes sociais. Consequentemente, para além da multiplicação do fluxo de informações, observamos a concretização, sem precedentes, de possibilidades de ligação (e desligamento) social para além das fronteiras nacionais das esferas públicas tradicionais. Alguns eventos evidenciaram a renovação contínua das práticas públicas e políticas, não só na democracia ocidental, mas também, e mais relevante ainda, nos difíceis contextos dos regimes autoritários1. As atividades de comunicação baseadas na net foram particularmente úteis e incisivas na formulação da dinâmica organizacional dos novos movimentos sociais, como é, por exemplo, o caso do movimento alter-globalização (Bennett, 2003; Dahlgren, 2009) , ou, mais recentemente, o caso dos movimentos Occupy (Gaby-Caren, 2012; Costanza-Chok, 2012) . Poderemos reconhecer, nos dois casos, uma linha de separação entre a dinâmica de comunicação aberta, horizontal e descentralizada adotada pelos movimentos e a natureza fluida da sua filiação e das suas pertenças ideológicas. Nos discursos da pós-democracia (Crouch, 2000) , as novas práticas dos média são, frequentemente, vistas como sendo a panaceia para a legitimação da crise das instituições representativas do ocidente (Castells, 2007) , e como a força motriz de uma profunda revolução cultural, conduzindo ao empoderamento horizontal e a uma sociedade
doi:10.17231/comsoc.23(2013).1619 fatcat:o4ifk3ypjzdwloyqwzkhfz7krq