Sistemática filogenética hennigiana: revolução ou mudança no interior de um paradigma?

Charles Morphy Dias Santos, Bruna Klassa
2012 Scientiae Studia  
A sistemática filogenética, método de reconstrução de árvores evolutivas criado por Willi Hennig em 1955 e ampliado em 1966, é frequentemente considerada um novo paradigma que revolucionou as classificações biológicas quando comparado às escolas de sistemática anteriores, como a taxonomia evolutiva. Tal abordagem da história da sistemática é baseada principalmente na visão de Kuhn sobre o progresso do conhecimento científico. No entanto, podemos questionar a validade desse status revolucionário
more » ... atus revolucionário -na visão kuhniana -atribuído à filogenética hennigiana. Aqui, discutimos os atributos compartilhados pela sistemática filogenética e taxonomia evolutiva, ambas profundamente relacionadas à teoria evolutiva de Darwin-Wallace, e porque o método de Hennig é de fato um desenvolvimento da proposta para as classificações biológicas de Mayr e Simpson, explícita na teoria sintética da evolução dos anos 1930 e 1940. Nesse sentido, elas ajustam-se à visão popperiana de "seleção natural" das hipóteses científicas. Mais ainda, a sistemática filogenética é um método científico robusto e objetivo, características que lhe permitem "sobreviver" na luta pela existência com outras escolas de sistemática. Palavras-chave • Kuhn. Hennig. Paradigma. Taxonomia evolutiva. Sistemática filogenética. Introdução Muito já foi considerado no que diz respeito ao desenvolvimento do conhecimento científico. Em Conjecturas e refutações (2008 [1980]), Karl Popper descreve o dilema que o fez voltar-se para a busca pela distinção entre ciência e pseudociência, por meio de uma breve comparação entre a teoria da relatividade de Albert Einstein e a teoria da história de Karl Marx, a psicanálise de Sigmund Freud e a psicologia individual de Alfred Adler, referindo-se a isso da seguinte maneira. Essas teorias [de Einstein, Marx, Freud e Adler] pareciam poder explicar praticamente tudo em seus respectivos campos (...). O mundo estava repleto de verificações da teoria (...). Era precisamente esse fato que constituía o mais forte argumento em seu favor. Comecei a perceber aos poucos que essa força aparente era, na verdade, uma fraqueza (Popper, 2008(Popper, [1980, p. 64). De maneira sintética, o critério encontrado por Popper para solucionar esse problema de demarcação do conhecimento científico foi a testabilidade ou falseabilidade das asserções (Popper, 1959). Uma vez que a verdade científica é inatingível, o que a proposta popperiana defende é o teste exaustivo das hipóteses científicas através da formulação de conjecturas ou proposições de caráter universal, a fim de identificar aquelas mais resistentes às críticas e atribuir-lhes certo grau de credibilidade ou proximidade da realidade. O desenvolvimento científico é, portanto, racional e acontece por meio de um processo gradual e constante de substituição de teorias menos satisfatórias frente aos testes por outras mais satisfatórias e de maior conteúdo informativo. Em 1962, na primeira edição de A estrutura das revoluções científicas, Thomas Kuhn propôs uma concepção diferente sobre a dinâmica do conhecimento científico. Ele introduziu o termo "paradigma" como sendo um "guia" consensual que trata dos fundamentos da prática de pesquisa (ou exercício da ciência normal), determinado por fatores objetivos e subjetivos e, por isso, incomensurável com qualquer outro. Para Kuhn, um paradigma corresponderia a um conjunto de realizações universalmente reconhecidas, o qual, por certo período histórico, fornece problemas, novas questões e soluções para a comunidade de pesquisadores. O desenvolvimento científico ocorre de duas maneiras, normal e revolucionária. A ciência normal "é aquilo que produz os tijolos que a pesquisa científica está sempre adicionando ao crescente acervo de conhecimento científico" (Kuhn, 2006, p. 23). O tipo revolucionário ocorre quando da ruptura completa do paradigma vigente em uma dada área, caracterizando um processo descontinuísta pautado por grandes revoluções conceituais. Segundo essa visão, a ciência normal seria uma atividade de resolução de problemas: uma comunidade científica, ao aceitar um paradigma, adquire igualmente um critério para a escolha de problemas que poderão ser solucionados dentro dos seus limites. O período revolucionário emerge quando o consenso paradigmático começa a ser questionado, quando novas teorias, surgidas nesse contexto, exigiriam grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal (cf. Kuhn, 1962) . Intimamente ligada à teoria da evolução, a sistemática filogenética, inicialmente proposta pelo entomólogo alemão Willi Hennig em sua obra de 1950, posteriormente traduzida para o inglês e ampliada (Hennig, 1966) , é considerada o paradigma contemporâneo no campo da taxonomia e sistemática biológica (cf. Schuh & Brower, 2009). Tendo em vista sua importância para o entendimento da diversidade orgânica à luz da evolução e para a reconstrução criteriosa de cenários histórico-evolutivos, a sistemática filogenética -também chamada cladística -é uma ferramenta importante para a
doi:10.1590/s1678-31662012000300008 fatcat:yd37sqnskzgklcpjbpnqgt3luu