ROGER BASTIDE, FRANCÊS ABRASILEIRADO

Gilberto Freyre
unpublished
Pode-se destacar de Roger Bastide que nele se afirmou de modo notável esta tendência até há pouco tempo pouco francesa: a do socicí-logo francês apoiar-se no estudo de recorrências não-francesas para de-senvolver critérios e generalizações sociológicas, confrontando-as com exemplos franceses. A tradição deixada pelos Comte e pelos Tarde e pelo próprio Le Play era outra. Outra a tradição deixada pelo soció-logo mais especificamente sociológico que foi Durkheim. Roger Bastide foi dos que romperam
more » ... oi dos que romperam com tais tradições, voltando-se para fenômenos sociais apresentados por populações ou sociedades ou culturas não-francesas. Exóticas, até, do ponto de vista europeu. Exó-ticas como as sociedades ou culturas africanas ou como a brasileira-inclusive a afro-brasileira. Exóticas e diferentes dos modelos europeus ou franceses e criando, assim, problemas novos para o sociólogo quanto a universalidade ou a validade total de certos fenômenos, acerca dos quais vinham se formando precipitadas conclusões à base de uma exclusiva europeidade. Este, talvez, o principal valor de sua valiosa contribuição para o desenvolvimento das perspectivas, das pesquisas, das sínteses, dos estu-dos sociológicos, nos últimos decênios. E a nós, brasileiros, é grato assi-nalar que para atingir essa amplitude de visão concorreu de modo nada insignificante seu contacto de modo algum turístico, antes demorado e aprofundado em várias áreas de estudo, com o Brasil. Foi um contacto em que aos sociólogos do tipo convencional se ligou, de modo a principio pouco ostensivo, o antropólogo social e cultural que nele sempre existiu, guardando-o de conclusões precipitadas e dando-lhe um gosto especial à análise de particularidades, de peculiaridades, quase se pode dizer que de singularidades. De singularidades psico-sociais. O contacto de Roger Bastide com o Brasil foi, assim, extremamente importante para a sua sociologia-para o seu modo de ser sociólogo-e através de sua obra e d o seu exemplo de mestre de várias gerações-inclusive na Sorbonne, na França-do seu ensino. Ele comunicou a não poucos dos seus compatriotas e, mais d o que isto, a não poucos euro-peus e até americanos do Norte seus contemporâneos, uma preocupação seriamente sociológica pelos fenômenos não-franceses, não-europeus, até, de vivência e de convivência humana susceptíveis de ser analisados e in
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