Mito e representação feminina em "O Forte" de Adonias Filho

Luciano Santos Neiva, Sandra Maria Pereira do Sacramento
2012 Anuário de Literatura  
Resumo: Com o objetivo de analisar os aspectos que tornam as representações de gênero como atualizadoras da redefinição da construção identitária, em contraponto ao legado fonofalologocêntrico eurodescendente, a partir da constituição do mito em O Forte de Adonias Filho; este artigo parte do princípio de que natureza fragmentada do ser humano contraria a pretensa homogeneização do ser, moldada pela abstrata universalidade moderna, cuja máxima é a racionalidade. Tal racionalidade ocidental,
more » ... ade ocidental, falocêntrica, branca, ignorou a heterogeneidade e não permitiu o surgimento de outras vozes, enquanto sujeitos do conhecimento. O presente artigo parte da hipótese de que o Forte é um elemento totêmico e desencadeia as relações míticas, que estabelecem tabus e possibilita -por ser o mito uma entidade pré-lógica ocidental -uma redefinição das representações femininas, em contraponto ao legado fonofalologocêntrico eurodescendente, ao longo das narrativas. O amor incondicional de Adonias Filho à condição humana nos permitiu, neste artigo, adentrar no recôndito de seres, marcados tanto pelo espaço, quanto pelo tempo, numa dimensão mítica. Se a memória do discurso ocidental revelou, em sua formação, pela via da padronização e da racionalização, princípios como a unidade, o fechamento, a ordem, o anseio do absoluto e a racionalidade, a memória mítica transpõe o pré-dado, possibilitando o olhar multifacetado. Palavras-chave: Linguagem. Representações. Mito. Identidade feminina. Linguagens e Representações Não são ingênuas as razões que nos fazem rir, com Benveniste, apesar de sua visão unicista, do "poder fundador da linguagem, que instaura uma realidade imaginária, anima as coisas inertes, faz ver o que ainda não existe, traz de volta o que desapareceu" (BENVENISTE, 1976, p. 27). As representações, aqui propostas, sinalizam para a importância de que os percursos críticos da literatura sejam tomados, sob uma perspectiva discursiva, capaz de alcançar o Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. 222 imbricamento do linguístico com o ideológico, constitutivo dos efeitos de sentido da linguagem. Tratando-se das análises das representações construídas, o nosso olhar dirige-se a várias situações, que envolvem um conjunto de relações existentes entre os significantes (as imagens evocadas pela narrativa e pelas palavras) e os seus significados (as representações). Assim, "cada sistema de representação supõe tanto uma classificação dos seres, quanto formas de relacionamento entre os seres" (LIMA, 2003, p. 87). Enquanto representação, o relato mítico é polissêmico, por seus planos múltiplos de significação. Não está fixado numa forma definitiva. Enquanto estrutura anterior à lógica ocidental fundante de comportamentos, o mito sempre comporta outras variantes, versões múltiplas que podem cortar, acrescentar e modificar o que lhe parecer conveniente, inclusive, contrariar a manutenção do status quo ou reafirmá-lo. O mito, enquanto tradição oral que se mantém viva, ao permanecer em contato com os modos de pensar e os costumes de um povo, sempre se modificará: o relato ficará parcialmente aberto à inovação. Memória, oralidade, tradição: são essas as condições de existência e sobrevivência do mito. Elas lhe impõem certos traços característicos, que formam um campo especifico de expressão da linguagem. Neste sentido, Duch (2002) argumenta que o universo mítico consegue abarcar o campo do onírico, do implícito e costuma se fazer presente justamente no centro da vida humana, ainda de maneira polissêmica, contraditória e suscetível de ser interpretada de formas diversas. Interessa-nos ainda focar o nosso olhar, na esteira do desconstrucionismo francês, para os Estudos Culturais, voltados, primeiramente, para os problemas da sociedade e da linguagem, e que passam, depois, para "uma reflexão centrada sobre o vínculo [sociológico] cultura-nação para uma abordagem da cultura dos grupos sociais" (MATTELART; NEVEU, 2004, p. 13-14). Logo depois, os Estudos Culturais abarcaram as questões Culturais ligadas ao gênero, à etnicidade e às práticas de consumo. Tais estudos rompem, assim, com as noções de sacralidade da arte e com a diferenciação entre alta e baixa literatura, pois os Estudos Culturais passaram a privilegiar a interdisciplinaridade e seu corpus deixa de ser apenas a Literatura. Não foi simplesmente uma inversão de modelo, mas um chamamento para o círculo do que estava à margem, incrementando a política da diferença, da valoração das minorias e das práticas Culturais marginais. Sob esta ótica, os Estudos Culturais -relacionados a sujeitos em contínua mutação e, conseqüentemente, a leitores em trânsito -atribuíram, ao já existente, ao conhecimento aparentemente estável, uma característica não-estática. Assim sendo, aquele real que se nomeava e acreditava como inevitável sob determinado ponto de vista, se viu aberto a
doi:10.5007/2175-7917.2012v17n1p221 fatcat:tg7wpvcutzfslmnhmhleqhdada