Ser-Tão baiano: o lugar da sertanidade na configuração da identidade baiana [book]

Cláudia Pereira Vasconcelos
2012 unpublished
A Capiele, meu sertanejo multicor... Aos meus mestres Gervácio Maciel e Maria Eugênia Milet por me ensinarem o Brasil... E a todas e todos os sertanejos de Serrolândia, cidade que me ensinou a ser. 4 AGRADECIMENTOS Esta é a parte da dissertação que todos vislumbram chegar, visto que já passamos por todas as sensações possíveis e imagináveis, vividas durante o longo processo da escrita. Pode parecer fácil, mas torna-se no mínimo arriscado para quem, felizmente, tem tantos amigos e pessoas
more » ... os e pessoas queridas que verdadeiramente estiveram junto, apoiando, estimulando e contribuindo com o desenvolvimento dessa temática que me é tão cara. Começo agradecendo ao "meu" povo de Serrolândia, amigos e companheiros (que sabem quem são) que me formaram na luta cotidiana. Ao povo das dezoito cidades do interior da Rede Ser-Tão Brasil, coordenada pelo CRIA, que tanto me inspirou e me ensina a pensar a convivência com o Semi-Árido, a cultura popular e a diversidade da Bahia. Agradeço especialmente ao Prof. Dr. Milton Moura que, ao longo desse processo, se mostrou carinhosamente um grande orientador, cuidadoso e competente. Foi durante a nossa breve convivência que, através das suas provocações, aprendi a ser mais baiana (leia-se, ousada). A Cláudio Novaes, querido parceiro de reflexões poéticas e ternas sobre o Sertão, que me instigou ainda nos primeiros passos da pesquisa. Às minhas eternas amigas e amigos do CRIA -verdadeira Universidade aberta -, especialmente aos que convivi e trabalhei de perto, costurando e arquitetando sonhos pelos Ser-Tões adentro. Às minhas amadas irmãs Tânia e Vânia, por serem meu chão e meu farol. A Papi Touzinho, por ter me ensinado, com sua "pedagogia do panóptico", a ser verdadeira e firme. À minha Mami querida, Rita, por ser a mais fiel e amorosa de todas. A Marco, o caçula que vive tentando me ensinar a tal da convivência. A Clarinha e Mateus, por trazerem mais alegria a minha vida. À minha irmã por opção Bebel, por ter me acolhido em Salvador e me mostrado como é possível ser acadêmica sem deixar de ser sertaneja. A Capiele que, além de me oferecer o seu amor (que alimenta a minha vida), teve a paciência de esperar terminar o mestrado para casar. Também por realizar, com habilidade e entusiasmo, a revisão deste texto. A Regi, mais um cabra que me inspira a beleza da vida e um possível retorno às "veredas". A Gil e Jura, mais do que colegas do pós-cultura. A Jane Adriana, pelos diálogos e troca de figurinhas pelo telefone. A Drª Vera Romariz, pela disponibilidade e cuidado com a revisão. A Rodrigo Nunes pela gentileza da escrita do abstract. Às profªs Drªs Stella Rodrigues (sertaneja das minhas) e Lídia Cardel (paulista que adotou a roça), pelas valiosas contribuições durante a qualificação e pela atenção para com a temática. Agradeço, ainda, aos queridos amigos Marcone (meio-irmãozinho mais novo), porque, além de me abrigar e assumir a cozinha no momento da escrita, realizou a belíssima arte gráfica da capa. A Lu, por não me chamar pro regue. A Iuri e Mariza, pelo carinho e pelo empréstimo dos livros. Ao professor Ênio e ao povo do pandeiro, por me ajudarem a relaxar no ritmo do samba. A Telma Insuela, que aromaticamente cuidou de mim, e a Rita, por cuidar das minhas coisas. Aos colegas e professores desta pós-graduação, especialmente aos que não dispensam uma filosofia no bar. Aos ex-colegas de trabalho do Liceu de Artes e Ofícios (especialmente a Vivina), que tão bem me acolheram. Aos novos colegas de trabalho do gabinete do professor/deputado Zilton Rocha, pela compreensão nas ausências. A todos os meus professores e colegas, que ao longo da minha vida deixaram marcas positivas no meu processo de aprendizagem escolar. Por fim, agradeço a todas e todos, que de alguma forma contribuíram com a realização deste trabalho. A novidade é que o Brasil não é só litoral, é muito mais, é muito mais que qualquer zona sul... Milton Nascimento e Fernando Brant RESUMO A pesquisa tratou de investigar como e em que sentido o discurso hegemônico da baianidade, centrado na cidade de Salvador e seu Recôncavo, se afirmou como única referência identitária para os baianos e não-baianos. Problematiza a visão totalizante dessa "cultura baiana", atualizada e divulgada pelas agências da política cultural do estado, bem como, verifica os motivos da negação da presença de uma tradição rural/sertaneja na Bahia. Visando a compreender a construção da idéia de Sertão e no sentido de analisar tais questões, a pesquisa parte de um estudo do contexto nacional, no processo de construção do texto identitário da brasilidade, perpassando pela formulação da nordestinidade, para, finalmente, refletir sobre a baianidade e a sua relação com a sertanidade. Desta forma, o trabalho considera o corpus correspondente à obra de Jorge Amado como referência principal do texto convencionalmente conhecido como baianidade. Por sua vez, os autores do Movimento Regionalista do Nordeste, sobretudo Gilberto Freyre, são tomados como referência do texto da nordestinidade. Por fim, toma o trabalho de Eurico Alves como principal discurso de afirmação da sertanidade como possibilidade de inserção nas referências da Bahia. Para compreender como os discursos identitários são organizados no campo social, a presente investigação teve como principal fundamentação os conceitos de estereótipo de Homi Bhabha e de poder simbólico e região de Pierre Bourdieu. Conclui-se pela impossibilidade de inserção das referências correspondentes à sertanidade no quadro correspondente à baianidade, o que, em contrapartida, aponta a insuficiência do texto da baianidade no sentido de abranger e representar todo o estado da Bahia. ABSTRACT The research investigated as and in what sense the hegemonic speech of baianidade, centered in city of Salvador and its the region called Recôncavo, has affirmed as only reference of identity for the baianos and non-baianos. It problematizes the complete vision of that "baiana culture", updated and divulged by agencies of the cultural politics of state of Bahia, as well as it verifies the reasons of the denial of the presence of a rural/sertaneja tradition in Bahia. Aiming at comprehension of construction of the idea of Sertão and in sense of analyzing such subjects, the research begin with a study of the national context, in process of construction of the identitary text of brasilidade, passing through the formulation of nordestinidade, and finally to contemplate about the baianidade and its relationship with the sertanidade. This way, the work considers the corpus corresponding to Jorge Amado's work as main reference of the text conventionally known as baianidade. In addition, the authors of the Movimento Regionalista of Northeast of Brazil, above all Gilberto Freyre, are taken as reference of text of nordestinidade. Finally, it takes Eurico Alves' work as main speech of affirmation of the sertanidade as possibility of inserting in references of Bahia. To understand as the identitaries speeches are organized in social space, the present investigation took the concepts of stereotype of Homi Bhabha as main base and of symbolic power and area of Pierre Bourdieu. It concludes by the impossibility of inserting the references corresponding to sertanidade in the space corresponding to baianidade, which, in compensation, it points the inadequacy of the text of baianidade in the sense of including and representing whole state of Bahia. tão presente e pulsante no imaginário dos brasileiros, nas letras, nas artes e na forma de dizer e de revelar quem somos. Até os cinco anos de idade, vivi na roça 4 (categoria específica que identifica, na região onde nasci, a chamada zona rural 5 ). Eu e minhas irmãs não tínhamos acesso a brinquedos industrializados, nem a livros infantis; então, brincávamos com a imaginação e a invenção de tudo. Com o balanço do cajueiro situado em frente à casa, com os bezerros que ficavam à tardinha em um curral pequeno, apartados das vacas, com as impressionantes mil pernas do gongo (centopéia), que ao ser tocado se enrolava todo. Mas era o bule-bule 6 que nos dava a direção do futuro. Esses eram os brinquedos preferidos. Quase não nos relacionávamos com pessoas diferentes; éramos nós cinco da família, o vaqueiro (agregado) Raimundo, os vizinhos distantes, Seu Pedro e Dona Valdomira, as árvores e os animais. Chegada a hora de ir para a escola, fomos morar na cidade, Serrolândia, pequeno município do interior, no norte da Bahia. Divide a sua paisagem com os matos secos do Semi-Árido e com algumas serras verdes; localiza-se no Piemonte da Chapada Diamantina. Sua população, segundo dados do IBGE, era de 12.616 habitantes, em 2000, sendo 6.042 moradores da zona urbana e 6.574 da zona rural 7 . A população local sobrevive basicamente da agricultura e da pecuária; há cerca de quinze anos, criou-se um complexo de aproximadamente vinte fábricas de bolsas e brindes para exportação, que emprega boa parte da população local, em sua maioria mulheres e jovens. Como a maior parte das pequenas cidades do Brasil, Serrolândia sofre com a escassez de políticas públicas, principalmente aquelas voltadas para a juventude. Nas itinerâncias por lá, como adolescente e jovem, perambulei por diferentes espaços de formação e militância que considero fundamental para as escolhas na vida adulta. Participei intensamente da vida escolar como estudante e depois como professora, sempre em escolas públicas; dos movimentos de juventude (Pastoral da Juventude do Meio Popular -PJMP), da Igreja Católica; de grupos de teatro popular (a exemplo do "Cala a Boca Já Morreu!"); do trabalho com alfabetização de adultos no Círculo de Cultura. Passei, também, pela direção do Sindicato de Professores (APLB), pelo movimento estudantil e pelo Partido dos Trabalhadores, paralelamente à formação universitária em História na Universidade 4 Fazenda Baixa Fria, localizada a 11 km da sede do Município de Serrolândia. 5 Para um aprofundamento da discussão sobre roça como categoria, ver SANTOS (2006). 6 Nome popular da crisálida -etapa intermediária entre a lagarta e a borboleta. 7 IBGE. Censo Demográfico de 2000. 15 Estadual da Bahia -UNEB de Jacobina, quando tornei-me professora de escola pública, na zona rural, no povoado de Salamin 8 . Sempre vivi imersa em um ambiente permeado de elementos e aspectos rurais, pois, além de pertencer a uma família de origem rural de ambos os lados, trabalhei durante anos com meu pai em seu comércio, a Casa do Fazendeiro, onde lidava diariamente com a população rural da região. Apesar disso, só me dei conta da minha relação com a ruralidade e da identificação com as questões referentes ao Sertão quando cheguei em Salvador, e mais precisamente ao CRIA, em 1999. Primeiro, por me perceber diferente dos soteropolitanos, na fala e nos gostos. Na Escola de Teatro da UFBA, aonde vim buscar um aprofundamento na minha formação artística, toda vez em que falava, em que lia, ou que representava, era abordada com perguntas do tipo: você é pernambucana? A diferença na forma de falar, no registro oral, é muito marcante para o migrante que chega do interior da Bahia para a capital. Percebi que o fato de se ouvir um sotaque e pronúncia diferentes dos habituais, sobretudo sem a palatalização do t e do d, levava os soteropolitanos a relacionarem de imediato o emissor, muitas vezes oriundo do interior da Bahia, com o pernambucano ou com alguém do Nordeste, região esta, da qual Salvador, mesmo a integrando oficialmente, parece não se reconhecer como parte. Depois, fui compreendendo as diferentes lógicas, principalmente na velocidade do tempo e das distâncias geográficas. Todas essas impressões aguçaram a curiosidade em conhecer essa grande cidade, tão fascinante, tão diferente de outros pedaços da Bahia e tão centrada em si mesma. Foi quando conheci o CRIA, um espaço cultural que promove a formação e um intercâmbio criativo entre comunidades/bairros de Salvador, escolas públicas da Região Metropolitana, cidades do interior da Bahia e outros estados do Nordeste (Pernambuco e Ceará). Ao conhecê-lo, reconheci a mim mesma num processo de fortalecimento de crenças e desejos no campo da arte e da educação. Compreendi mais o Brasil, a Bahia e o Sertão e através de experiências estéticas coletivas identifiquei-me com tal trabalho. Ao mesmo tempo em que me aproximei do CRIA, fui apresentada ao Movimento de Intercâmbio Artístico Cultural pela Cidadania -MIAC 9 , um importante movimento cultural (instigado pelo CRIA), que se articulou em rede na cidade de Salvador, chegando a reunir quase duzentas instituições e grupos culturais. A partir da inserção nessa experiência de juntar pessoas e instituições de 8 Distrito do Município de Serrolândia localizado a 9 km da sede. 9 Para saber mais sobre o MIAC consultar FERNANDES (2005) ou MENEZES (2005). Milton Nascimento & Fernando Brant Fotografia do Sertão de Canudos -encontrada no google.
doi:10.7476/9788523212339 fatcat:qodhsycuejgzhm2rhwojsmmjw4