Pela metade: notas de um quase início [chapter]

Kauan Almeida
2020 Ficções do ser: o entre-lugar de bichas pretas na escola  
SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros ALMEIDA, K. Pela metade: notas de um quase início. In: Ficções do ser: o entre-lugar de bichas pretas na escola [online]. Ilhéus, BA: Editus, 2020, pp. 39-66. Transfluência series. ISBN: 978-65-86213-15-7. https://doi.org/10.7476/9786586213300.0003. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é
more » ... uver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribição 4.0. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento 4.0. Pela metade: notas de um quase início Kauan Almeida 9 Pela metade: notas de um quase início Um grande pátio se abre à visão, são oito horas da manhã de uma terça-feira. Uma grama verde ainda molhada pela neblina forra o chão próximo à parede branca e alguns bancos. As janelas de batentes azuis dão uma continuidade harmônica à paisagem. A composição se forma no decorrer dos passos que ficcionalizam o ambiente. Cartazes nas paredes, alguns com manifestações de direito ao corpo: girl power, black is beautiful. Corredores se formam, o corpo está ao meio, claustrofobicamente tragado por entre portas azuis que dão para linhas que compõem experiências. Grandes quadros que resguardam memórias do que ali se passou: bacias hidrográficas, equações de segundo grau, regra de três. De repente, ruídos escapam de direções distintas, entro em uma sala retangular. Uma mesa à frente de quarenta carteiras, janelas com seus vidros quebrados e uma frase pichada na parede: quero ir embora. Na sala retangular, composta por mesas e cadeiras, ouço sibilos e estertores de corpos que agonizam fechados, eles me olham lateralmente, mas não consigo distingui-los, embora haja claridade na sala. Seus movimentos são sinuosos 2 4 0 e por vezes se embaraçam como se estivessem engalfinhados em uma briga, são fricções corpóreas do ininteligível, eles se penetram, se modificam, separam-se e novamente formam uma unidade. Uma batalha que ora resiste ora se entrega. De repente, os corpos se multiplicam incansavelmente, ocupam todos os espaços da sala. Uns gritam, outros assistem desinteressados às fagulhas resultantes dos encontros. Mas já não é uma briga, é puro prazer de intensidades, é produção de desejo sem gozo, são experiências, linhas de fuga, ética fora da moralidade. Dos corpos engalfinhados, não saem sangue, mas fluxos que atravessam toda a sala, escorrem pelos corredores, molham as gramas, alcançam a quadra e são usados como tintas para pichar o banheiro. Alguns corpos pisam nos fluxos, mas não se importam, não são molhados pela substância estranha, logo, limpam seus pés e caminham rumo às tarefas ordinárias do cotidiano.
doi:10.7476/9786586213300.0003 fatcat:7mp4zb7zxjc25mpgnrmsunet3u