Leitura sem moral

Jorge Marinho
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O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas, e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética... Alguma coisa que "se bolasse" nesse sentido, no campo da educação, valeria como corretivo prévio da aridez com que se costumam transcorrer os destinos profissionais, murados na
more » ... s, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio... Carlos Drummond de Andrade 2 Palavras de mestre. Acredite! Falta prazer nos caminhos do conhecimento, falta brincadeira, falta exercício lúdico, falta aposta no imaginário, falta poesia e poe-ticidade como invenção ou recriação da realidade, do que proviso-riamente já se sabe ou ainda se está por saber. Eu podia parar por aqui-na epígrafe do Drummond que diz tudo e sensivelmente se oferece como registro de uma ausência na carteira escolar. No entanto, sou motivado pelo Poeta, por ele mesmo, a dizer umas palavras a mais: pouco se diverte na sala de aula, pouco se ri ou se cria, em nada se invertem os papéis escolares, investindo na dimen-são lúdica do conhecimento como contraponto ou, que seja, dimensão complementar de uma rotina de ensino estigmatizado em linha reta, da exposição linear e hierárquica, da repetição ou mecanização do saber. Falta, falta sim. Falta alegria, ousadia e criatividade nas metodo-logias do "ensinar para aprender", do informar para formar, do vivenciar o conhecimento como desejo de ser. Falta magia, ludismo, intuição, espírito criativo na escola como "corretivo prévio" da aridez que norteia, por bem ou por mal, uma prática tão ingênua e pedago-gicamente "lógica" na sua raiz, como nos alerta Drummond. Falta escola na escola, a escola não tem quase nenhuma escola nas veredas do lúdico, nos rumos da imaginação. Pois muito bem: nesse contexto há necessidade de que o espaço escolar não seja apenas um lugar que veicule o conhecimento pelo conhecimento, no sentido de quem detém o saber e passa esse saber de forma hierárquica e artificialmente formal para o outro. Mais do que isso: há necessidade e urgência de que a vivência escolar transcenda a sua rotina, por meio de ações que funcionem como permanente diálogo entre aquele que ensina e aquele que busca saber; entre a experiência acumulada do educador e as expectativas e os interesses do aluno; entre a relevância inestimável de quem tem como ofício suprir os vazios de conhecimento e a atitude, ainda que silenciosa, carregada de indagações de quem busca saber, num feliz casamento entre conhecimento e prazer. É evidente que tal aproximação tão desacreditada caminha por um território em que o aluno aprende porções de vida e o professor igualmente reaprende as suas porções de vida com os alunos, porque tal convivência tem como meta a interlocução que, quando se faz como presença da receptividade e do respeito humanos, sabe que toda verdade é provisória, discutível ao menos num determinado aspecto, suscetível a interrogações. Enfim, busca infinita, promessa de mais um passo além, movimento de ida sem fim. Nas vielas, nas entradas e no trânsito desse caminho, não é nada exagerado dizer que a matriz do conhecimento é a indagação, e o
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