Poder religioso e trans/sexualidade em "A Confissão" (1979), de Bernardo Santareno

Luís Sobreira
2018 Cadernos de literatura comparada  
Resumo: A Confissão, peça publicada em 1979 e levada à cena no ano seguinte pela Seiva-Trupe, do Porto, escassos meses antes da morte de Bernardo Santareno, denuncia o moralismo conservador e hipócrita que continua a imperar no Portugal pós-revolucionário. Através da análise dos diálogos entre o padre-confessor, uma paroquiana humilde e um travesti determinado a levar avante uma cirurgia de reatribuição sexual, observaremos a obsessão totalitária da Igreja em policiar as práticas sexuais dos
more » ... icas sexuais dos crentes e assim controlar a sua consciência. Examinaremos a forma como, ao exercer o seu poder sobre os corpos individuais no sentido de os normalizar e submeter, o que a instituição religiosa visa in fine é dominar o próprio corpo social, contribuindo assim para manter uma organização sociopolítica característica do Antigo Regime. Ao contrário da mulher do povo, sem forças para resistir à autorictas religiosa (que a sujeita à violência da dominação masculina), o transexual Françoise, esse, acabará por se emancipar radicalmente, retomando o controlo da sua vida, sem se preocupar com o juízo da sociedade. Note-se entretanto que, embora solidária com as classes trabalhadoras, Françoise apenas recebe delas o desprezo. Vítima dos preconceitos de género não só da elite, que hipocritamente a utiliza para os seus fantasmas sexuais, mas também de outros oprimidos como ela, esta personagem "revolucionária" é, pois, duplamente, traída e marginalizada. Palavras -chave: trans/sexualidade; conservadorismo moral e sociopolítico; Revolução de Abril Abstract: A Confissão, drama published in 1979 and taken to the scene the following year by Seiva-Trupe (Oporto), a few months before the death of Bernardo Santareno, denounces the conservative and hypocritical 71 Luís Sobreira N.º 39 -12/ 2018 | 71-90 -ISSN 2183-2242 | http:/dx.doi.org/10.21747/21832242/litcomp39a5 moralism that continues to prevail in post-revolutionary Portugal. Through the analysis of the dialogues between the priest-confessor, a humble parishioner and a transvestite decided to carry out a sexual reassignment surgery, we will observe the totalitarian obsession of the Church in policing the sexual practices of believers and thus controlling their conscience. We will examine how, in exercising its power over the individual bodies to normalize and subdue them, what the religious institution wishes is to dominate the social body itself, thus contributing to maintaining a socio-political organization characteristic of the Old Regime. Unlike the woman of the people, without strength to resist the religious authority (which subjects her to the violence of male domination), the transsexual Françoise will finally emancipate herself radically, regaining control of her life, without worrying about the judgment of society. It should be noted, however, that, although solidary with the working classes, Françoise only receives contempt from them. A victim of gender stereotypes not only from the members of the elite, who hypocritically use her for their sexual fantasies, but also from other oppressed people like her, this "revolutionary" character is therefore doubly betrayed and marginalized. Em A Confissão, peça publicada em 1979, 1 e levada à cena no ano seguinte pela Seiva-Trupe, do Porto, 2 escassos meses antes da morte de Bernardo Santareno (pseudónimo de António Martinho do Rosário, 1920Rosário, -1980, reencontramos problemáticas caras ao autor: o dualismo sagrado-sacrílego, o amor mal vivido, a pulsão sexual e o seu refreamento pelas regras morais e convenções sociais. Estas problemáticas, presentes desde as primeiras peças (A Promessa, O Bailarino, A Excomungada, 1957), foram-se sempre manifestando ao longo da obra, designadamente no tratamento de temas como a coerção que a religião exerce sobre as mentalidades e os comportamentos, reforçando assim a opressão política e social dos indivíduos, as inibições psicossexuais engendradas por um meio retrógrado e castrador, mas também o desafio à norma introduzido por certas personagens, marcadas, cada uma a seu modo, pela "diferença". Com efeito, padres, freiras e os problemas decorrentes da sua opção de vida singular, mas também prostitutas, homossexuais ou ainda toxicodependentes têm uma presença importante nos textos do dramaturgo. À simpatia de Santareno por estes seres diferentes, não serão sem dúvida alheios o facto de ele próprio 72 Poder religioso e trans/sexualidade em A Confissão (1979), de Bernardo Santareno N.º 39 -12/ 2018 | 71-90 -ISSN 2183-2242 | http:/dx.doi.org/10.21747/21832242/litcomp39a5 ter tido uma forte formação cristã, com uma passagem pelo Seminário dos Olivais, e a circunstância de, uma vez médico, ter optado por uma especialização em psiquiatria, a qual sem dúvida lhe abriu inúmeros ângulos de visão sofre o sofrimento do outro no seu ser e no seu carecer. Como notou Maria Aparecida Ribeiro, entre as primeiras e as últimas obras, há, no entanto, uma forma diferente de tratar os assuntos, o que tem como origem a modificação dos conceitos dramatúrgicos do escritor, pelo conhecimento que trava com o teatro de outros países e com o texto brechtiano, e a própria mudança da sociedade portuguesa. (Ribeiro 2005: 1107-1108) De acordo com os especialistas, é possível identificar, de facto, três fases na obra de Santareno. Uma fase inicial, do ano de estreia até 1962, caraterizada por uma filiação na tragédia clássica. Os heróis em luta pela afirmação da sua individualidade, vivenciada como
doi:10.21747/21832242/litcomp39a5 fatcat:rhpgwgb3pzbwxonwquuwkwfcte