Descrição da cidade de Viseu: um poema épico barroco

Sara Augusto
2020
Depois da épica medieval, "com os alvores do Renascimento e devido à revalorização da Poética de Aristóteles e de Horácio, a exigência de um cânone mais rigoroso conduziu a um amplo debate sobre a natureza e as características do poema épico, numa tentativa de alcançar o equivalente moderno da epopeia homérica ou virgiliana" (FERRO, 1997: 306). Esta discussão teórica e respectivas experiências literárias assumiu em Portugal contornos específicos, correspondendo a uma confluência de vectores que
more » ... cia de vectores que contemplava, por um lado, a proclamação da epopeia como o género mais nobre, dentro da expectativa criada pelo código poético renascentista, e, por outro lado, o espírito de exaltação nacionalista com origem nos Descobrimentos, mostrando a consciência da excepcionalidade dos feitos militares dos portugueses na expansão (FERRO, 1997: 307). Assim, através do poema camoniano Os Lusíadas, "entendido como a cristalização de mitos nacionais e a força histórico-poética do espírito de um povo, estava encontrada a forma da poesia épica que, entre nós, iria marcar a evolução do género nos períodos seguintes" (FERRO, 1997: 307). A partir dele, fixou-se uma estrutura formal, contemplando uma sucessão de partes tradicionais, em que a narrativa se constitui como um todo, unindo episódios e descrições de índole histórica, lendária e alegórica, em cantos de oitava rima. E fixou-se a noção de herói que chegou a merecer a consagração dos deuses devido a um percurso de "heroísmo, da experiência, do sofrimento, do esforço e da virtude", demonstrando uma "sábia conjugação de aspectos dos modelos medieval e renascentista, guerreiro em empresas bélicas e, simultaneamente, rico de virtudes morais, perfeito cavaleiro e cortesão nas relações sociais e, sobretudo, homem predisposto ao amor" 1 . 1 FERRO, 1997: col. 308-309; cf. ainda col. 308: "Daí decorrem já as características que marcam os heróis camonianos: a religiosidade, o valor, os feitos, a lealdade, a nobreza, a fortaleza de alma, o desprezo de riquezas e honras, a dignidade, o espírito de sacrifício, a eloquência, a prudência, a cortesia e a capacidade de amar.
doi:10.34632/mathesis.2001.3857 fatcat:pdgvi5p4dfgbnobvhl7l7q2g34