Interpretações do eu: uma análise comparativa de A céu aberto, de João Gilberto Noll , e A cidade ausente, de Ricardo Piglia

Profa Dra, Gomes Shirley De Souza, Carreira
2003 unpublished
Doutora em Literatura Comparada-UFRJ Professora de Literatura Comparada UNIGRANRIO Coordenadora do Curso de Letras UNIGRANRIO 1-Situando o sujeito pós-moderno Há praticamente doze anos, Stuart Hall escreveu um artigo intitulado "Cultural Identity and Diaspora", no qual afirmava que "se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte, é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora narrativa do eu". Essa reflexão surgiu a propósito
more » ... surgiu a propósito de uma tentativa de compreender o caráter complexo da formação da identidade, principalmente no contexto que se convencionou chamar de "pós-modernidade". Em uma obra posterior, "The question of cultural identity", Hall distingue três concepções de identidade: o sujeito do iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno. A primeira é, sem dúvida, uma concepção individualista do sujeito e da sua identidade. A segunda, parte do princípio de que, como um ser social, o homem precisa interagir com o meio. A última, que vem a ser o foco de nosso interesse, concebe a identidade como uma "celebração móvel", formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. A questão da identidade envolve mais que uma tentativa de definição do sujeito, uma vez que interage com o conceito de identidade nacional. Ernest Gellner (1983,6) afirma que sem o sentimento de identificação nacional o sujeito moderno experimentaria um profundo sentimento de perda subjetiva. Para Hall, assim como a identidade subjetiva, a identidade nacional se forma e se transforma no âmbito da representação, uma vez que a nação não é apenas uma identidade política, mas um sistema de representação cultural. Nas últimas décadas do século XX, a concepção da identidade foi profundamente afetada pelo que se pode considerar uma das transformações essenciais no campo cultural, a experiência do descentramento. O descentramento do sujeito, provocado pela fragmentação social, o descentramento geográfico, facilitado pelo desenvolvimento tecnológico e o descentramento cultural, favorecido pelas tendências multiculturalistas que se intensificaram a partir da década de 80. Descentrar implica dissolver fronteiras, promover a interpenetração dos discursos, desarticular as estruturas binárias mutuamente excludentes que constituíam os pilares da hegemonia cultural. Assim, a identidade subjetiva, que estava atrelada à identidade nacional, passa a desarticular-se ante a desterritorialização do sujeito, propiciando o surgimento de identidades cambiantes e provisórias. Este trabalho constitui uma tentativa de analisar tendências relativas à representação do sujeito e o modo de construção das identidades na literatura latino-americana contemporânea, tomando por base duas obras representativas: A cidade ausente, de Ricardo Piglia, e A céu aberto, de João Gilberto Noll, a fim de demonstrar como a representação de identidades múltiplas e cambiantes vem a expressar as
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