JÚLIA LOPES DE ALMEIDA E MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO: VOZES FEMININAS?

Ana Helena Cizotto Belline
1999 Via Atlântica  
A comparação entre aspectos da vida e da obra da portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921 e da brasileira Júlia Lopes de Almeida (1862Almeida ( -1934 revela importantes aspectos da produção literária de autoria feminina do fim do século XIX e início do XX nos dois países. De tais aspectos abordam-se aqui representações literárias de questões de gênero, avultando, de início, os motivos do prestígio de crítica e de público no período em que viveram e o posterior esquecimento, até a
more » ... cimento, até a reavaliação atual. A obra de Júlia tem despertado grande interesse na crítica feminista que se dedica ao resgate de escritoras brasileiras do passado que permanecem à margem do cânone literário. Além da reedição de um dos seus romances, A Silveirinha, de 1914, artigos em revistas, capítulos de livros e teses acadêmicas evidenciam o valor atualmente atribuído a sua produção. Darlene J. Sadlier, em artigo de 1992, aponta como uma das causas de Júlia ter sido excluída do cânone literário o mesmo motivo pelo qual hoje ela é reavaliada pela crítica feminista: sua ficção trataria de um mundo bastante exclusivo, diferenciado, de atitudes e costumes burgueses, cuja temática centraliza-se no universo doméstico feminino. Diante do experimentalismo formal do modernismo e da temática social do neo-realismo das décadas de 1920 e 1930, a ficção de Júlia passa a ser vista como estranha ou irrelevante. A freqüência com que aparecem textos de Maria Amália nos periódicos brasileiros do último quartel do século XIX -sempre mencionada em suas biografias -além da facilidade com que ainda se encontram seus livros em bibliotecas ou mesmo em sebos, e as numerosas edições, revelam a extensão de sua popularidade no Brasil. Dela é possível afirmar-se que continua esquecida pelos mesmos via atlântica n. 2 jul. 1999 44 motivos que causaram grande prestígio tanto de público como de crítica na sua época: o modo como incorporou na vida e na obra a imagem da escritora-senhora 1 . Trata-se do anacronismo do seu pensamento doutrinário e moralizador que, de um lado, dirige-se para a apologia exclusiva dos valores da burguesia abastada aliada à insensibilidade a problemas sociais, e por outro lado, oscila entre tradição e modernidade no que diz respeito à condição feminina. Da sua produção literária extensa e variada, que se estendeu de 1867 a 1913, abrangendo a história, a poesia, o conto e a crônica, analiso aqui quatro obras: Mulheres e crianças (1880), Cartas a uma noiva (1896), A arte de viver em sociedade (1897) e Impressões de história (1910). A produção literária de Júlia, que se inicia em 1881 e termina no ano de sua morte, é também vasta e variada, incluindo conto, romance, teatro, crônica. Maria Amália, de ascedência ilustre, durante meio século manteve um célebre salão literário em Lisboa, que foi freqüentado pela elite intelectual da época, como Camilo, Eça, Antero e Ramalho Ortigão. Casou-se, em 1874, aos vinte e sete anos, com o poeta Gonçalves Crespo (1846-1883), nascido no Rio de Janeiro, de mãe negra, naturalizado português. O início da carreira de Maria Amália deve-se à leitura que fez a Tomás Ribeiro do livro de poesia Uma primavera de mulher, o qual então a estimulou, prefaciando a obra que foi publicada em 1847, quando a autora tinha 20 anos. Júlia Valentina da Silveira Lopes, cinco anos mais nova do que Maria Amália, nasceu no Rio de Janeiro, filha de intelectuais portugueses abastados radicados no Brasil. Em 1887, aos 25 anos, Júlia casa-se com o poeta português radicado no Rio de Janeiro e naturalizado brasileiro, Filinto de Almeida (1857-1945). A descoberta acidental do talento da escritora, que começou carreira de jornalista aos dezenove anos, também pode ser comparada à de Maria Amália, ou seja, por incentivo masculino, no caso do pai, que fingiu ter sido solicitado para escrever um artigo para um jornal de Campinas, o qual ele deixaria a cargo da filha, por falta de tempo. Na biografia das duas autoras tal caráter acidental condiz com a imagem de que a literatura vem sempre em lugar secundário em suas vidas. A importância de tais dados biográficos para a produção literária das duas autoras enfatiza-se quando se verifica de que modo eles interferem no julgamento dessa produção pela crítica contemporânea de autoria masculina. Apontando-se as altas qualidades morais de filhas, mães e esposas, não separando a obra da vida 1 No discurso comemorativo do 50º aniversário literário da escritora, Augusto de Castro afirma que existem três tipos de mulheres na literatura: a escritora-homem, a escritora-mulher, e a escritora-senhora, ao qual pertenceria a homenageada. Prefácio da 8ª edição de Cartas de uma noiva, incluído desde a quarta edição. Lisboa, Empresa Literária Fluminense, s/d.
doi:10.11606/va.v0i2.48732 fatcat:ya7zoksf2zf2hgpfeao3ingk3a