No mar dos abandonos: Suspiro entre a teoria e a prática queer

Sara Wagner Pimenta Gonçalves Junior
2018 Revista Brasileira de Estudos da Homocultura  
O artista é uma mera ficção acrescentada à obraa obra é tudo Nietzsche Percebo-me hoje como uma privilegiada, mesmo tendo sido uma criança criada por uma avó paterna adotiva, que me criou até os 8 anos como tendo laços de consanguinidade. Entretanto, fui retirada ainda recém nascidx de um hospital em dezembro de 1975, por uma mãe que já tinha quatro filhos e precisava de mais um filho, desta vez para a formação de sua nova família, com o então amante. Percebo que aqui a narrativa toma traços
more » ... tiva toma traços que vão definir o perfil do meu maior inimigo nas táticas sociais de sobrevivência: o patriarcado! Eu fui a promessa e expectativa de família feliz, cisgênero, heterossexual e 100% normalizada, isto é, compreendida como normal, como natural pelo processo daquilo que nossa constituição entende como família. Entretanto, falo de uma família composta por três pessoas, um amante que acredita ser pai biológico de um filho do sexo masculino, uma mulher, mãe de quatro filhos, que aparece com um recém nascido do sexo masculino, e um recém nascido que foi retirado de sua progenitora por meios ilícitos. Sendo esta família uma estrutura falsa, mentirosa e sem sentimentos reais por parte de alguns atores, esta foi feita e compreendida para recriação de desenhos lineares e sem distorções, mas então esse recém nascido cresce e reage diariamente. Chamo a atenção nesse momento para os sentimentos possíveis de uma "mãe" que sequestra um recém nascido para ser parte de uma invenção, e esta ter que diariamente ver esse filho como prova de um crime, o sequestro cometido. Cresci assim, sendo a pior coisa que poderia estar diante de uma mãe, e por anos tentava compreender o porquê de tanto mal estar diante desse filho. Sou latina de cabelo preto e enrolado, quase compreendida como mestiça, mas que em função de anos de cabelo pintado de loiro claro e alisado, fui me distanciando do qualificador de negritude que possuo, o cabelo que me qualifica como branca e um nariz cirurgicamente 1 Professora, ativista LBGTQIA, formadora de atores, linguista, tradutora, pedagoga e pesquisadora.
doi:10.31560/2595-3206.2018.1.9074 fatcat:yb7zi6cqerfbnlx244vgt6soxu