MASSUMI, Brian. 2014. What the animals can teach us about politics? Durham: Duke University Press. 135pp

Thiago Araujo Pinho
2020 Cadernos de Campo (São Paulo 1991)  
O humanismo parece um traço óbvio e insistente, já que somos humanos e desse horizonte (transcendental) não existe fuga, muito menos redenção -ao menos é assim que a história é contada. Estaríamos presos em uma eterna malha interpretativa, subordinando tudo aos nossos olhos curiosos, como se o humano não fosse apenas uma espécie como outra qualquer, mas a própria possibilidade de sentido (a única possibilidade). Já o resto, aquilo que sobra da equação ontológica, de cadeiras até pássaros no
more » ... passando por carros, prédios, cães e gatos, é reduzido a uma simples carcaça de matéria sem forma, vagando por um mundo insignificante, apenas governado por Newton e suas leis mecânicas e frias. Como bem lembrou o filósofo Graham Harman (2017), ressoando o "Jamais Fomos Modernos" de Bruno Latour, esse modelo clássico de pensar apresenta uma ontologia dividida em duas partes: 50% reservada apenas aos humanos e 50% reservada a todo o resto. Ao humano foi dado o privilégio não apenas de possuir uma ontologia toda sua, o que já é uma conquista enorme, e uma vaidade fora do comum, como também um privilégio muito maior: definir os demais espaços ontológicos, tendo como referência seus próprios critérios. Até em religiões como o cristianismo, traços humanistas aparecem o tempo todo. O humano não é apenas apresentado como se fosse uma criatura qualquer, um simples organismo produzido por mãos divinas, mas algo de especial, muito mais nobre. Ao contrário dos animais, Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27), carregando um pouco do divino dentro de si, ao mesmo tempo que produz uma diferença ontológica intransponível. "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra" (Gênesis 1:26). Além disso, esse divino improvisado, esse pedaço de matéria celestial, foi produzido no sexto dia, coroando a criação, assim como recebeu o privilégio de nomear tudo aquilo que seus olhos eram capazes de ver, principalmente os animais que encontrava pelo caminho. Recebido em: 23/09/2020 Aceito para publicação em: 22/12/2020
doi:10.11606/issn.2316-9133.v29i2pe175063 fatcat:pru4i7jlcff55btrssqhfakyfu