Teoria e prática no Teatro do Pequeno Gesto: Dramaturgia e Editoria da revista Folhetim

Fátima Saadi
2003 Sala Preta  
atividade artística é um terreno movediço Aristóteles reconhece a obra de arte como para quem dela procura se aproximar ape-potência lógica, capaz de veicular juízos verdanas pela via conceitual ou apenas pela ati-deiros, embora não universais. Para ele, a obra vidade prática. Ao colocar em jogo, sem não imita a natureza, mas completa-a, realiprecedência ou hierarquia entre estas duas zando, pela mão do homem, o que a physis não instâncias, o sensível e o inteligível, a obra de realizou. arte
more » ... de realizou. arte requer uma aproximação capaz de perceber Em 1750, Baumgarten cunha o termo ese valorizar tal imbricação. tética para designar a parte da filosofia que se Parece simples, mas não é. Não é óbvia dedica ao pensamento sobre a essência do belo, essa complexa natureza da obra de ane nem para mas só com Kant esta reflexão ganhou foros de os criadores nem para os fruidores. cidadania. No bojo do Iluminismo, que teve Até meados do século XVIII, a filosofia como corolário indiscutível a entronização do abarcou a maior pane dos saberes, entre eles a indivíduo como categoria sociológica fundareflexão sobre a obra de arte, sua natureza, seu mental, Kant elaborou três dos conceitos ainda interesse para o homem e para a vida em socie-hoje seminais para a discussão sobre arte. O pridade. Platão bane o artista da República, na meiro deles é a formulação do belo como juízo medida em que a obra de arte distancia o cida-reflexivo, e não como mero reflexo ou imitação dão da verdade, objetivo máximo de todo aque-da natureza. O segundo é a noção de que existe le que quer abandonar o senso comum e enve-uma relação de adequação entre juízo estético e redar pelas sendas da filosofia, o amor do saber. sujeito, entendido aqui não como sujeito parti-Para Platão, a arte não tem utilidade alguma na cular, mas como natureza subjetiva. O terceiro ascese necessária para o acesso ao reino das é a idéia de que o juízo estético, como o juízo Idéias. Ao contrário, para empreender esta ca-teleológico, tem uma finalidade, mas, ao conminhada, é preciso esquecer aquilo que finca o trário deste, cuja finalidade é orgânica e objetihomem no mundo material: o sensível, a apa-va, o juízo estético tem finalidade moral: o agrarência. Na concepção platônica, a obra de arte do desinteressado. Daí ser impossível colocar o é, prioritariamente, imitação, cópia, reflexo da estético a serviço de fins alheios a ele. aparência, estando assim distante três níveis do A partir de então, a contestação das poélogos, do mundo das Idéias. ticas normativas, a relação que o artista estabe-, Fátima Saadi é pesquisadora, dramaturgista do Teatro do Pequeno Gesto e Editora da revista Folhetim. .
doi:10.11606/issn.2238-3867.v3i0p25-30 fatcat:623rrxwz2ja2xgmjgqtvauqlku