Retórica da Vida: Discursos sobre a Eutanásia

Inês Ribeiro, Santos -Ines Nrcsantos@
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Resumo O artigo mostra de que forma a noção de "vida" surge como ponto central na discussão sobre a eutanásia. Entende-se por eutanásia, em sentido lato, a decisão de antecipar a morte de um ser humano, seja ela feita directamente por um médico ou realizada pelo paciente ainda que sob instruções médicas. Considerando a noção de "facto argumentativo" utilizada na escola da nova retórica, e analisando a obra de Ronald Dworkin, filósofo político norte-americano, "Domínio da Vida -aborto, eutanásia
more » ... -aborto, eutanásia e liberdades individuais" o artigo demonstra como a noção de "santidade e dignidade da vida humana" surge como facto argumentativo na discussão sobre a eutanásia, ou assim parece ser. Num exercício de análise e explicitação dos argumentos utilizados em discursos sobre esta temática, percebe-se que, tanto de um lado como de outro, sejam a favor ou contra a legalização desta prática, ambas as matrizes têm por base o mesmo ponto de partida: a dignidade da vida humana. Tendo em conta as noções de "valores" e "preferências", entendemos que a noção de "vida" adquire vários sentidos e é com eles que se constroem a linha de pensamento perceptíveis nos discursos realizados ao longo dos anos não só sobre a eutanásia mas sobre vários assuntos como o aborto ou outras "liberdades individuais". Aquando a análise, é possível concluir que se põe em causa o valor intrínseco da vida humana, tal como o seu valor "inviolável". Não havendo uma definição concreta e explícita de "vida humana" é impossível partir para a discussão pois ambos os lados têm diferentes opiniões do que é necessário para dignificar um ser humano e a sua vida. Na discussão está então em causa como se define vida e não se a eutanásia é moral e politicamente correcta ou não. O que se coloca em questão é se a consciência, autonomia e capacidades dos seres humanos, a sua qualidade de vida e as suas escolhas são ou não um factor decisivo para valorizar e exaltar a vida humana de maneira a que se possa tomar decisões desta amplitude sobre a mesma. Palavras-chave: Retórica; Facto Argumentativo; Eutanásia. Capítulo 1 -Facto argumentativo Entende-se por facto argumentativo, a tese ou o pressuposto que auxilia a base da nossa argumentação, i.e., o que consideramos verdade inquestionável e, portanto, pensamos que ninguém, do auditório ao qual nos dirigimos, irá colocar em causa. Na verdade, quanto menos for referido, quanto menos for reflectido, mais valor tem enquanto facto argumentativo. Um exemplo de um facto argumentativo é quando obervamos um objecto a cair não pensamos na sua causa: sabemos que se um objecto não tiver qualquer tipo de suporte, cairá no chão. Sabemos que existe a lei da gravidade e ninguém questiona que se largarmos algo, cairá no chão porque a força da gravidade atrairá o objecto, provocando a sua queda. (Perelman, 2006: 78) Em ciências exactas, como a matemática, é possível explicar através da demonstração, o raciocínio lógico inerente à mesma (e.g.: 2 + 2 = 4). No entanto, quando pensamos em temáticas do campo da argumentação e não da demonstração, como é a lei da gravidade ou a matemática, aquilo que consideramos facto argumentativo está de acordo com a tese que iremos defender e com aquilo que conhecemos ou pensamos conhecer do auditório para o qual nos dirigimos. Mas não é possível tecer lógicas nem juízos de valor sobre temas da sociedade contemporânea, como é a experiência do debate sobre a eutanásia. O objectivo já não é impor ou demonstrar algo, mas sim provocar a "adesão dos espíritos às teses apresentadas". (Perelman, 2006: 31) É neste contexto que surge o facto argumentativo. Em relação ao facto argumentativo, o orador já não pretende a adesão a uma ideia, pelo contrário: o facto argumentativo, como já foi referido, é a base argumentativa de todo o discurso e é algo que o orador considera que é aceite pelo seu auditório. Na maioria das vezes não é algo consciente uma vez que quanto menos reflectido for maior será o seu valor enquanto facto argumentativo. Enquanto oradores de uma determinada temática, aquando a preparação do discurso e da argumentação inerente ao mesmo, não são raras as vezes em que explicitamos argumentos contrários à nossa tese sem, no entanto, referir o que temos por facto argumentativo por nos parecer tão claro
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