O rei e os deuses nos anais assírios

José Nunes Carreira
2019
Apesar das diferenças de concepções do exercício do poder e da narrativa dos sucessos, é ponto assente para Egípcios, Hititas e Assírios que as guerras se ganham por ajuda divina. Os Assírios têm fama de ser dos primeiros e mais sangrentos a praticar a «guerra santa», com os deuses por principais actores e beneficiários das guerras de conquista. Em inúmeras passagens dos chamados Anais, parece que a guerra é tarefa exclusiva dos deuses. Mas as mesmas expressões ocorrem com o rei por sujeito. O
more » ... rei por sujeito. O «terror do esplendor de Assur» coexiste com o terror do rei; as armas de Assur resplandecem nas armas do rei. Com toda esta simbiose de causalidades e valores divino-humanos há que falar em sinergismo entre os deuses e o rei. A função legitimadora e propagandística dos Anais não suprimiu a evidente intervenção da vontade humana. Não se prova a existência de «guerra santa» distinta de guerra profana e o mesmo deve valer para Israel e para todo o Antigo Oriente, se não mesmo para toda a antiguidade. Distinguir o «religioso» e o «profano» na vida social desses tempos representa um insustentável anacronismo.
doi:10.34632/didaskalia.2008.1886 fatcat:mkq7xewplnblnbh3t75wu6jk6u