Werner Heisenberg e a Interpretação de Copenhague: a filosofia platônica e a consolidação da teoria quântica

Anderson Leite, Samuel Simon
2010 Scientiae Studia  
resumo Este artigo discute o uso que Werner Heisenberg faz da filosofia grega clássica no âmbito dos debates acerca da teoria quântica realizados na primeira metade do século xx. Para esse autor, a ciência foi determinada pelo influxo de duas correntes de pensamento que surgiram na Grécia antiga: o materialismo e o idealismo. A partir de tal clivagem, Heisenberg fundamenta sua crítica aos opositores da Interpretação de Copenhague, além de justificar filosoficamente suas próprias teses sobre a
more » ... ias teses sobre a mecânica quântica. Apesar de suas concepções filosóficas não serem passíveis de uma sistematização completa, a relação que Heisenberg estabeleceu entre a filosofia grega e os problemas da teoria dos quanta acabou por resultar em uma interpretação da realidade física na qual é predominante um platonismo e um incipiente estruturalismo matemático. Palavras-chave • Mecânica quântica. Teoria quântica. Werner Heisenberg. Interpretação de Copenhague. Filosofia platônica. Idealismo. Materialismo. Anderson Leite & Samuel Simon scientiae zudia, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 213-41, 2010 Congresso: "no que diz respeito aos resultados científicos, estou completamente satisfeito. Seus pontos de vista e os de Bohr têm sido geralmente aceitos; ao menos objeções sérias não têm sido mais feitas, nem mesmo por Einstein ou Schrödinger" (Heisenberg apud Cassidy, 1991, p. 254). Com essa ampla aceitação entre a elite dos físicos da Europa, Bohr e Heisenberg iniciaram a propagação de suas ideias em outros campos. Bohr, na década de 1930, ministrou palestras para os mais variados públicos, relacionando a noção de complementaridade com um sem-número de temas. Em 1933, ele proferiu a palestra "Luz e vida" na abertura do Congresso Internacional sobre Terapias através da Luz. Em 1937, participou do Congresso de Física e Biologia em Bolonha e, um ano depois, discursou no Congresso Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas, em Copenhague, discorrendo sobre "Filosofia natural e culturas humanas" (cf. Bohr, 1995). Heisenberg, por sua vez, seguiu os passos de Bohr e, em 1929, realizou uma série de palestras (mas para platéias mais especializadas) pelos Estados Unidos, Japão, China e Índia. As preleções na Universidade de Chicago serviram de base para seu primeiro livro, intitulado The physical principles of quantum mechanics (Os princípios físicos da mecânica quântica), publicado em 1949publicado em (cf. Heisenberg, 1949. Segundo Cassidy (1991, p. 265), este tinha como propósito expresso a disseminação do "espírito da teoria quântica de Copenhague" -o que explica a forte influência das ideias de Bohr em todo o texto. Iniciou-se, então, a prolífica carreira de Heisenberg como divulgador das ideias do grupo de Copenhague, dela resultando toda a imensa produção de artigos filosóficos e científicos que marcaram a vida intelectual do físico alemão. Estes, sem dúvida, carecem de certa sistematicidade, pois seriam "sempre feitos sob medida para o consumo público, sendo deste modo motivados pelos objetivos pessoais [de Heisenberg] perante cada audiência particular" (Cassidy, 1991, p. 255). Mas, apesar da assistematicidade, o efeito propagandístico das palestras e artigos é imenso. Eles são um dos pilares para o estabelecimento da hegemonia do "espírito de Copenhague" não somente entre os físicos, mas, principalmente, entre o público leigo que, consequentemente, acaba por ignorar toda a variedade de interpretações possíveis para os fenômenos quânticos. Figura 1. Heisenberg em Göttingen, 1924 (Fonte: http://www.aip.org/ history/heisenberg/p05.htm).
doi:10.1590/s1678-31662010000200004 fatcat:bswxeucm2zaqli42ovmqsk6lgm