O aceno possível: a leitura de Marie Gil do Texto-Vida de Barthes

Carolina Molinar Bellocchio
2013 Revista Criação & Crítica  
Na capa da Edição Francesa, lê-se em branco: Grandes Biographies. Compondo mais um dos volumes publicados por essa linha pela Flammarion, o biografado da vez é Roland Barthes. De Chateaubriand a Rimbaud, de Bachelard a Gide, de Haussmann a Hitler (e inúmeros outros), a todos nessa coleção foi ofertada uma escrita da vida, uma tentativa de recompor os traços por traços segundos e um olhar atravessado e de revés, olhar que pretende encontrar uma origem e desenrolar o fio da vida até seu remate.
more » ... a até seu remate. Nesse sentido, a biógrafa de Barthes, Marie Gil, não se furta de querer empreender uma leitura teleológica; encontrar algo do fim que se identifique já na origem, prenhe de desenvolvimento. Não se pode negar, entretanto, senão a originalidade dessa biografia, ao menos a delicadeza de sua visada: ela reconhece rapidamente na Introdução o descrédito desse gênero, e posiciona-se no sentido de não levar adiante a discussão nos termos que a crítica e que a doxa compreendem. Assim ela o faz porque sua proposta de escrita do texto biográfico tem seu ponto de partida nas próprias considerações de Barthes a respeito da relação entre texto e vida. Reconhecendo que o seu desejo de escrever uma biografia de Barthes é exatamente incitado por ele, ela afirma, retomando-o, que a vida não se torna um texto, mas que se constitui como tal: ela é da ordem do textual (p.13). Para adentrar essa discussão é necessário se voltar para as próprias proposições de Barthes a respeito do gênero e que Gil traz oportunamente para seu texto. Inicialmente -1971 -Barthes pensa o biografema fundado no prazer e como fruto de uma leitura subjetiva ao conciliar as noções da biografia com noções linguísticas, baseando-se em uma noção estruturalista. É em Sade, Fourier, Loyola que se encontra a ideia de que o biografema assemelha-se a um trauma: fixando o fluxo de significantes do texto, ele os faz significar. Assim, a eleição subjetiva de uma unidade do texto, o biografema, é produto de uma "teoria da leitura". Ora, é o leitor-Barthes que empresta um traço à biografia do escritor, ou seja, o desejo de
doi:10.11606/issn.1984-1124.v2i11p120-125 fatcat:eggmjp5y5zfkne7g3s5aj4iyma