Visões do feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX e XX

Claudia Bonan
2005 Cadernos de Saúde Pública  
Foi com grande interesse que li Visões do Feminino: A Medicina da Mulher nos Séculos XIX e XX, de Ana Paula Vosne Martins. Nas últimas décadas, muito se tem escrito sobre o papel dos modelos explicativos das ciências biomédicas e dos processos históricos impulsionados pelos seus agentes na conformação da matriz sócio-cultural, política e institucional das sociedades modernas. Nesse campo de estudos, alguns autores tornaram-se referência obrigatória como, por exemplo, o francês Michel Foucault e
more » ... s Michel Foucault e o brasileiro Jurandir Costa. A obra aqui apresentada candidata-se a ser uma das monografias de referência nesse campo de investigações, tanto pela especificidade de suas contribuições, sua abordagem teórico-metodológica e suas teses, como pelas novas indagações que projeta. Visões do Feminino: A Medicina da Mulher nos Séculos XIX e XX soma-se aos programas de pesquisa que se dedicam à questão de como o corpo, a sexualidade e a reprodução tornaram-se objetos privilegiados para forças sociais que emergiram com a modernidade, como pensadores sociais dos séculos XVIII e XIX, estrategistas do Estado nacional e representantes das ciências biomédicas. Seus pontos de partida são o estudo da formação de um discurso científico sobre a diferença sexual e da constituição da ginecologia e da obstetrícia como especialidades médicas na Europa e no Brasil, e busca compreender como a "ciência sexual" e a "medicina da mulher" foram forças centrais na construção e legitimação do imaginário moderno da diferença radical entre homens e mulheres, ou mais exatamente, da alteridade feminina radicada inexoravelmente em seu corpo. Na leitura de Martins vemos como, no século XIX, com o triunfo da biologia e a ascensão do poder médico, consolidou-se um novo modo de pensar as distinções de gênero: as diferenças corporais se instalaram progressivamente como referência do feminino e do masculino. No sexo biológico, médicos, biólogos, anatomistas e fisiologistas viram a origem de uma irredutível diferença entre homens e mulheres expressada não somente na ordem físico-anatômica, como também em uma ordem moral e social. Em seu afã de definir a "mulher", eles promoveram um intenso debate público sobre a domesticidade e a inferioridade das mulheres, a vocação maternal, a sexualidade perigosa, o pudor feminino, a pouca aptidão para a política e as ciências etc., contribuindo para fundamentar a exclusão das mulheres da esfera da cidadania e a negação de sua autonomia e subjetividade. Enquanto o corpo feminino se tornava objeto de um discurso normativo altamente eficiente, os médicos se consolidavam como poder político e artífices de primeira linha na construção das instituições modernas: as ciências, a família burguesa, o Estado nacional etc. As relações entre saber médico e corpo feminino têm sido objeto de estudo de vários autores fora e dentro do Brasil e há uma razoável bibliografia sobre a temática. Em nosso país, não são inexistentes, porém ainda são poucos os estudos que nos oferecem análises sociohistóricas e antropológicas extensas, combinando revisão bibliográfica e análise de fontes primárias, como teses de medicina, arquivos de hospitais e escolas médicas e revistas médicas. Esse fato também realça a relevância do livro que ora apresentamos. Com maestria, Martins dialoga com várias vertentes da literatura que têm se debruçado sobre o tema da construção moderna do corpo feminino, inclusive o pensamento crítico feminista e o campo de estudos de gênero. Longe de qualquer explicação simplista e com grande rigor metodológico, a autora transita entre a literatura e os dados sociohistóricos primários, percorrendo um itinerário com núcleos de argumentos articulados e desenvolvendo sua tese central: a instituição do corpo feminino como objeto do discurso médico-científico e sua transformação em lugar de prático de intervenção de seus agentes geraram "um processo de gerenciamento dos corpos femininos sem precedentes até meados do século XIX". Para a compreensão do fenômeno, ela reconstitui analiticamente processos políticos dinâmicos, influenciados por múltiplas causas e condições históricas. Ao lermos Visões do Feminino: A Medicina da Mulher nos Séculos XIX e XX, somos introduzidos nos meandros da constituição do campo político onde se disputam os significados da diferença sexual e do corpo feminino, e temos um cenário complexo de seus vários componentes: os atores sociais, suas origens, relações e interações, conflitos, alianças e oposições, agendas e estratégias; os marcos interpretativos que lhes orientam e os elementos ideológicos e valorativos de seus discursos; os diferenciais de poder entre eles; os espaços políticos e institucionais que ocupam e sua interlocução com outros campos de debate político. Os contextos políticos, sociais e culturais que emolduraram esses processos também são cuidadosamente apresentados, permitindo um entendimento das estruturas de oportunidades e condicionamentos que os atores históricos encontraram e como novos conhecimentos e práticas foram incorporados reflexivamente, transformando as instituições tradicionais e dando passo às instituições modernas. O livro está estruturado em oito partes. Na Apresentação, Martins expõe a problemática de seu estudo, situando-a não apenas nos primórdios das sociedades modernas como também demonstrando sua pertinência para a compreensão das dinâmicas da modernidade contemporânea. Os modos como processos de temporalidade distintas influenciam a contemporaneidade é sintetizado da seguinte maneira: "queremos apontar para a semelhança entre a representação moderna da mulher-corpo e a representação médico-científica produzida pelos saberes que foram objeto deste livro, mesmo porque as imagens e os mecanismos de controle sobre a mulher hoje não são apenas produtos do mercado -fazem parte de uma história da produção de saberes e práticas sobre o corpo feminino, cujas origens estão em outros domínios: as ciências biológicas e a medicina da mulher". No primeiro capítulo, Gênero, Ciência e Cultura, a autora discorre sobre o nascimento da ciência moderna, fundadora de uma nova forma de ver e explicar o mundo natural e humano, instituindo como método a observação empírica, a experimentação e a classificação e nomeação das coisas, e revolucionando as bases epistemológicas do conhecimento, que passa a ser concebido como um processo objetivo, fundado em princípios dicotômicos como a separa-
doi:10.1590/s0102-311x2005000200039 fatcat:xcmsvbgjzfdu3ndlvj2fsxvgta