Apresentação da Edição Temática: Turismo e Organização Sócio-Espacial

Thiago Duarte Pimentel
2016 unpublished
O terceiro número de 2016 é uma edição temática dedicada à Organização Socioespacial promovida por meio do, pelo e para o Turismo, que a partir de um conjunto de textos de perspectivas diferentes, desde aquelas mais criticas às mais funcionalistas, passando por diferentes enfoques, desde os impactos sociais produzidos pelo uso e apropriação do espaço pelo turismo à forma como a percepção e a imagem de determinados espaços turisticos pode ser produzida e gerida, este número reune um vasto
more » ... une um vasto material de diferentes partes do mundo. Abrindo a presente edição temos o ensaio teórico Espacios de Protección del Capital: panoptismo y videovigilancia en el destino turístico de Cabo San Lucas, Baja California Sur (México), de autoria dos pesquisadores Jesús Bojórquez Luque, doutorando em história pela Universidad Autónoma de Sinaloa/UAS (México), Manuel Ángeles Villa, doutor em Relações Transpacíficas pela Universidad de Colima/UC (México), e por Alba E. Gámez Vázquez, doutora em relações internacinais pela Universidade de Essex (Reino Unido). Neste ensaio teórico, a partir de uma perspectiva crítica baseada na teoria da microfisica do poder de Michel de Foucault, os autores se dedicam a análise dos mecanismos de vigilância, pública e privada, a partir do conceito de panóptico, o qual é trasladado para a visualização dos destinos turísticos. Assim como no panóptico carcerário de Bentham onde todos os detentos são vigiados de forma difusa, sem identificar a fonte que os vigia, os autores defendem a tese de que, nos destinos turísticos, a introdução de mecanimos de vigilância, tais como câmeras e sistemas integrados de monitoramento, produzem uma rede impessoal e difusa que, se por um lado cria a sensação de proteção aos vigiados, por outro, tem uma finalidade precípua de resguardar e proteger a integridade do capital, fazendo com que os espaços de consumo criados para serem apropriados pela indústria turística estejam sempre disponíveis e propícios a serem continuamente operados de forma ininterrupta, assegurando assim a mantenção e reprodução das condições de incremento do capital. Nesse sentido, tornase imperioso e necessário arguir se e como tais mecanismos se traduzem numa expansão das liberdades individuais humanas ou se, de forma concomitante e inrerente a sua utilização, eles seletivamente impõem um determinado padrão de uso e apropriação do espaço. Indo na esteira desta refexão, a saber, na polaridade instalada entre as formas de uso e apropriação do espaço consideradas legitimas e adequadas pelos grupos sociais dominates, inclusive determinando que espaços devem ser ocupados e quem tem o direito de ocupá-los, versus os usos e apropriação consideradas ilegítimas ou inadequadas, segundo o padrão dominante, feitos pelos grupos sociais marginalizados e despossuídos é que se insere também o segundo artigo desta edição, outro ensaio teórico, intitulado Controle do Espaço Urbano e o Território como Produto Turístico: reflexão teórica sobre a segregação imposta da população em situação de rua no contexto de megaeventos (Rio 2016), de autoria de Sara Conceição de Paula, mestra em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidad Autónoma de Sinaloa/UAS (México), diploma em revalidação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil). Tomando com base no pano de fundo do contexto dos Jogos Olímpicos sediados pela cidade do Rio de Janeiro em 2016, neste documento a autora se preocupa em analisar como a população marginalizada, em situação de vivência nas ruas, -considerada mesmo indesejada -sofre a intervenção de Estado por meio de mecanismos de gestão pretensamente democráticos e integradores mas que, de fato, são formas de manter o controle e a ordem sobre essa população e o espaço que ela pode ou deve ocupar (assim como, principalmente, quais espaços ela não pode e não deve ocupar). Em sua análise a autora recorre ao conceito chave de gueto, de Loic Wacquant, para trazer à tona uma reflexão sobre como o aparelho estatal se assenta, de forma difusa, sobre mecanismos e sistemas -como o sistema penalque visam a repressão e punição para a manutenção de uma ordem social hegemônica, tendo sua eficácia mais acentuada, sobretudo, sobre aqueles que, de forma inversamente proporcional, são os mais frágeis, despossuídos de capitais e recursos passíveis de serem mobilizados e que, portanto, seriam os que supostamente mais necessitam do Estado. Assim, é curiosamente nessa lógica perersa que se instala um sistema de proteção, que, na verdade, serve para proteger aqueles que já estão protegidos, evitando por meio da neutralização, segregação e exclusão o contato com os indesejados. O terceiro artigo,
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