CÍCERO, DO ORADOR 1.1-23 1

Adriano Scatolin
unpublished
RESUMO: O trecho traduzido divide-se em três seções: 1.1-5 estabelece Quinto Cícero como o destinatário da obra e apresenta as circunstâncias que teriam movido Cícero a escrevê-la; 1.6-20 descreve as dificuldades de se atingir a eloquência e a escassez de grandes oradores ao longo da história, por contraposição ao que acontece nas demais artes; 1.21-23 define o tema do diálogo e o situa na tradição retórica. ABSTRACT: The passage selected is divided into three sections:1.1-5 establishes Quintus
more » ... Cicero as the work's addressee and presents the circumstances surrounding its writing; 1.6-20 describes the difficulties of reaching eloquence and the scarcity of great orators throughout history, as opposed to what happens in other arts; 1.21-23 sets out the dialogue's theme and places it within the rhetorical tradition. 1. Refletindo inúmeras vezes e rememorando os tempos antigos, Quinto, meu irmão, costumam parecer-me extremamente ditosos aqueles homens que, no apogeu da República 3 , ao se distinguirem tanto pelas honrarias como pela glória de seus 1 Texto de base para a tradução: Kumaniecki 1969. Todas as datas referidas nas notas são a. C. A convenção das abreviações das obras antigas seguida é a do Oxford Latin Dicionary. O tradutor agradece Marlene Lessa Vergílio Borges pela revisão cuidadosa do texto e pelos inúmeros comentários e sugestões. 2 Professor de Língua e Literatura Latina na Universidade de São Paulo. 3 Merklin 2006: 599, n. 1 aponta o período de tal apogeu como o intervalo entre o início da República, em 510, e as reformas dos irmãos Tibério e Gaio Graco, de 133 a 121. Cf. Ac. 2. 15 e a fala de Cévola, em de Orat. 1. 38: "Quanto a mim, se quisesse me servir de exemplos de nossa cidade ou das demais, poderia mencionar mais prejuízos do que vantagens causados à situação política pelos oradores mais eloquentes. Porém, [...] os mais eloquentes que tive oportunidade de ouvir foram Tibério e Gaio Semprônio, cujo pai, homem prudente e austero, nem um pouco eloquente, salvou a República em diversas ocasiões, e sobretudo quando censor. Ora, não foi pela riqueza elaborada do discurso que ele transferiu os libertos para as tribos urbanas, mas por um gesto e uma palavra. Se não o tivesse feito, a República, que hoje em dia mal conseguimos manter, há muito não estaria em nossas mãos. Por outro lado, quando seus filhos, homens expressivos e preparados para discursar por todos os recursos concedidos pela natureza ou pela formação teórica, receberam em mãos a Cidade em seu apogeu (fosse pela prudência do pai, fosse pelas armas dos ancestrais), arruinaram a República com sua eloquência [...]" (itálico nosso).
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