Modos de subjetivação na política de acolhimento institucional de crianças e adolescentes: narrativas do viver [thesis]

Aline Garcia Aveiro
AGRADECIMENTOS Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: -Me ajuda a olhar!
more » ... ajuda a olhar! (Eduardo Galeano) Por sua importância para mim, a escrita dos agradecimentos tornou-se uma parte bastante desafiadora: tirou-me o sono e me emocionou. Comecei a escrevê-la logo no início e, neste momento final, recomeço infinitas vezes buscando a certeza de que cada pessoa, ao ler, saiba da importância que teve nesse processo. Pude me ver emaranhada em uma rede na qual se fizeram presentes múltiplas formas de apoio e cuidado. Feito artesanalmente, este caminhar exigiu tempo, paciência, solidão, encontros, noites sem dormir e muita insistência em meio a uma vida que convoca cada vez mais à velocidade. Maior velocidade e menor permanência. Para permanecer, fui entendendo a importância dos encontros: minha caminhada contou com muitas e diferentes pessoas que possibilitaram que eu permanecesse potente nesse laborioso percurso que é o trabalho de elaboração de uma dissertação. À Universidade de São Paulo, agradeço pela guarida institucional nos diversos momentos da minha vida. Ao Instituto de Psicologia, agradeço pelo espaço fértil e acolhedor, de bons encontros e pensamentos. E agradeço também a todos os profissionais que, de alguma forma, possibilitaram minha estada e meu fazer. À Secretaria de Pós Graduação, em especial à Olivia, agradeço por possibilitar este trabalho e garantir todos os processos necessários para que ele pudesse ser realizado. Aos que me ajudaram a olhar... À Adriana, orientadora desse processo e professora desde a graduação, agradeço imensamente por me acolher, por me impulsionar a deslocamentos, por insistir no cuidado com as palavras, pela paciência com minhas demoras e minhas urgências, e por me lembrar, sempre, das possibilidades de luta quando a vida parece perder sentido. Ao Julio Groppa, agradeço, inicialmente, por me receber como monitora de sua disciplina e em seu grupo de pesquisa: experiências estas que foram fundamentais para os caminhos percorridos neste trabalho. Agradeço por ofertar formas diferentes de compreender o mundo, por me convocar a inquietações, por me arrancar do meu lugar e me levar a novos olhares. Por fim, agradeço pelas belíssimas contribuições quando da qualificação deste trabalho: sem elas, a vida impressa aqui estaria estática e sem movimento. À Irene Rizzini, quem desde o início instigou pensamentos e foi referência nas discussões e lutas dessa área; tão logo se tornou leitora do meu trabalho e contribuiu de forma generosa e sensível para a escrita dessa dissertação. Agradeço por me inspirar. À Ana Godoi, agradeço por me ensinar a ver as belezas desse processo, por me fazer permanecer e confiar. Agradeço por acolher meus passos de forma tão bela, serena e assertiva. Tornou-se uma companhia dessa empreitada tão solitária trazendo seriedade quando necessário, e provocando a rir nas dificuldades. À Yara Sayão, aquela que me apresentou ao mundo do serviço de acolhimento e, ampliando meu olhar, produziu inquietações e o desejo por atuar nessa área. Agradeço por me lembrar, sempre, da história, das lutas e das conquistas. Ao grupo de orientação, agradeço pelas leituras e contribuições com meu trabalho. Em especial àqueles que, de diferentes formas, tornaram menos árida essa empreitada: à Allana, pelo riso e loucuras; à Lilian, pela diversão e confidências; à Marcela, pelas lágrimas e sorrisos; à Patrícia, pela gentileza e força; ao Diego, por ser o príncipe; à Renata, pelo samba e boas conversas. Em especial, agradeço a meu querido amigo André, companheiro desse percurso, compartilhou das loucuras e delícias, e contribuiu na leitura atenta e nas discussões de forma sempre generosa. Aos que me levaram ao mar e ajudam a olhar... À minha mãe, agradeço intensa e amorosamente por permitir e dar forças ao meu mergulho na escrita, compreendendo ausências, cansaço e mau humor, e garantindo minha paz sempre com muitos sorrisos. Ao meu pai, agradeço pelas conversas tão serenas, pelo cuidado, pela paciência e pelo apoio sempre tão acolhedor nos momentos difíceis. À minha querida irmã Lilian, que tanto me ajuda a desbravar caminhos, enfrentar medos, interpelar o mundo e a me demorar mais nas pequenas coisas da vida. Aos meus avós, Otília e Raimundo pelo amor, pelo cuidado, pela compreensão e pelas alegrias compartilhadas; que com suas histórias me mostram diariamente como atravessar oceanos e, assim, superar as intempéries da vida. Ao meu avô Ewerton, que com a lucidez de seus noventa e seis anos, insiste em repetir sobre a importância de estudar "pra saber", incentivando os estudos e fortalecendo, assim, a beleza do conhecimento. Ao Alexandre, irmão querido; ao Victor, cozinheiro impecável; ao Ronnie, parceiro de conversas e viagens. À Sthê, Helo e Vagner, pela parceria na vida e no trabalho, pelas conversas, pelo aprender incessante da área, pela força em reinventar e, principalmente, pela presença. À Julia, Débora, Maira, Talitinha e Ana, amigas tão queridas, que me apoiaram na (re)construção de sonhos e lutas. À Mariana, amiga de longa data, que, de perto, acompanhou as nuances de parte dessa trajetória, me incentivando sempre a continuar, valorizando cada passo que eu dava e celebrando comigo cada conquista. À Iraê, velha nova amiga, que com a potência da música me ajuda a olhar para o mundo de forma mais leve e divertida. E aos novos amigos Laísa, Renato e Alysson, por compartilhar comigo momentos tão belos. Ao Ton, amigo de infância, por possibilitar leveza e risos. Michele e a tanto outros que, de diferentes formas, me apoiaram. À Ana Laura, por me convocar a assumir posições, experimentar novos lugares e provocar à desconstrução de verdades. Àqueles com quem me encontrei no caminho ao mar... Agradeço a todas e todos com quem pude me encontrar em minha trajetória profissional, enfrentando o desconhecido, conquistando saberes e aprendendo a desaprender. Em especial, agradeço à Valeria P., Lucas e tantos outros junto dos quais me fortaleci. Às vidas presentes neste trabalho... Por fim, agradeço intensa e especialmente ao Pedro, aos irmãos Lucas, Rafael e Douglas, e à Amanda por provocarem em mim um turbilhão de afetos, pensamentos e questões, por me inquietarem, incitaram, sem saber, as principais questões deste trabalho. Assim, me acompanharam nas entranhas desta pesquisa, estiveram presentes mesmo na ausência, me lembrando da força de suas vidas tão violentadas. Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa concedida, contribuindo para que eu pudesse realizar esta pesquisa. Palavras-chave: processos de subjetivação; serviços de acolhimento; políticas públicas; crianças; adolescentes. ABSTRACT AVEIRO, A. G. Subjectivation modes of foster care policy for children and teenagers: narratives of living. 2018. 119 f. Dissertação (Mestrado) -Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. The present work is dedicated to exploring how the protective institutional foster care for children and teenagers measure works, revealing the forces present in this scope of work, as well as the effects on the lives upon which it acts. Considering the premise that such equipment is part of the so-called Special Social Protection Network of High Complexity of the Brazilian Social Assistence policy and are anchored in the discourse of care and protection, as well as in the logic of guaranteeing rights, it is affirmed the powers, challenges and contradictions present in these institutions. These institutions bear traces of a history in which the treatment of the child and adolescent is marked by a precarious process of lifesicknesslives permeated by sufferingand which, simultaneously, result in protective and care practices. The lives of which we speak are lives of the children and adolescents, lives of their family or even the professional presents in the concerned institutions. The objective is to understand, from the functioning of the services and policies in vogue, which modes of life have been engendered. The experience in Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (Saica) incited the issues presents in this dissertation and allowed access to ways of analyzing family relationships, daily practices, institutional relationships and their power relations, as well as the elements present in the work with family and adoption practices. Three stories were chosen to show these different questions and are part of a writing-narrative woven with elements of these stories, theoretical discussions, quantitative data and some reflections. Movements and inflections in institutionally fostered lives carry facets of the tangle that in fact is a Saica and allow them to articulate these lives to their conditions of existence by emphasizing the efforts that day-to-day practices generate protection and care. UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância SUMÁRIO 1 OS CAMINHOS DE UMA PESQUISA 17 1.1 Existências. E persistências 17 1.2 Direções e inflexões 18 1.3 A formação psi 22 1.4 Sobre aquilo que produz movimento 24 2 PEDRO: AS IDAS E VINDAS DE UMA HISTÓRIA -A QUE(M) TEM SERVIDO O SAICA? 27 2.1 Quem chega aos Saicas 30 2.2 O ECA é para todos, todos os Menores 38 2.3 Crianças e adolescentes perigosos e em perigo: um velho cenário 41 2.4 O medo e seus efeitos 49 2.5 Impasses 52 2.6 De mão em mão 57 3 FAMÍLIA SANTOS: DO ABANDONADO AO SUJEITO DE DIREITO -REPRODUÇÕES E RUPTURAS 58 3.1 Órfãos, depositados, abandonados e menores em nosso presente 60 3.2 A (re)produção do afastamento familiar 69 3.3 A família como um muro poroso 77 3.4 A escrita como estratégia produtora de família 81 3.5 Passado, presente e futuro: o tempo de construção 84 4 AMANDA E SEUS DESTINOS: PERCORRENDO AS ENGRENAGENS DE UM SAICA 86 4.1 Entre uma casa e a precariedade 87 4.2 Paradoxos de uma vida em acolhimento 91 4.3 O muro que produz adotáveis 96 4.4 A relação público-privada 99 4.5 Quando o serviço não se torna temporário 103 5 OS MOVIMENTOS, AS VOZES E A VIDA 107 REFERÊNCIAS 112
doi:10.11606/d.47.2018.tde-13072018-104147 fatcat:lm5k3es5tzclhgk4aubfukc5aq