Escrever para não esquecer: entrevista com Scholastique Mukasonga

Larissa Esperança da Silva, Lucília Lima Souza Lima Teixeira, Mariana Cunha Firmino, Sandra Coeli Barbosa dos Santos
2020 Manuscrítica  
Scholastique Mukasonga, nascida em 1956 em Ruanda, é uma escritora francófona sobrevivente do genocídio dos tutsis ocorrido nos anos 1990. Ela emigrou para a França nesse período e ali estabeleceu residência trabalhando como assistente social. Escrever passou a ser uma necessidade para salvar a memória[1]: Onde estão eles hoje? Na cripta memorial da igreja de Nyamata, crânios anônimos entre tantas ossadas? Na brousse, sob os espinheiros, em uma fossa que ainda não veio a público? Copio inúmeras
more » ... ico? Copio inúmeras vezes o nome que ainda não veio a público? Copio inúmeras vezes o nome deles no caderno de capa azul, quero provar a mim mesma que eles existiram, pronuncio seus nomes um a um na noite silenciosa. Sobre cada nome devo definir um rosto, pendurar um retalho como lembrança. Não quero chorar, sinto as lágrimas escorrerem pelas minhas faces. Fecho os olhos, esta será mais uma noite sem sono. Tenho muitos mortos a velar.[2] Depois de conferências realizadas em São Paulo em novembro de 2019 sobre três de suas obras traduzidas para o português e publicadas pela editora Nós: A mulher dos pés descalços (2017), Nossa Senhora do Nilo (2017) e Baratas (2018), a autora Scholastique Mukasonga, acompanhada de seu filho Aurélien, gentilmente, nos concedeu uma entrevista em seu hotel, que foi gravada em áudio antes de seu embarque para Nova York, onde concorreu ao prêmio National Book Awards 2019 por A mulher dos pés descalços. Segundo a escritora, esse é o seu livro mais conhecido nos Estados Unidos e no Brasil, lançado na FLIP em Paraty em 2017. Depois de transcrever integralmente a gravação de uma hora de entrevista e traduzi-la, procuramos cortar repetições e hesitações características da oralidade afim de tornar a leitura mais fluida. A escritora teve ciência de todo o processo até a publicação desta entrevista. [1] As citações presentes nessa entrevista foram escolhidas pelas entrevistadoras. [2] MUKASONGA, S. Baratas. Tradução Elisa Nazarian. São Paulo: 2018, p. 18.
doi:10.11606/issn.2596-2477.i42p219-229 fatcat:ycftymvuybfhrd3zjov262hpkm