Profissionalismo e políticas de gestão

Paula Broeiro, Directora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
2016 Revista Portuguesa de Clínica Geral  
Rev Port Med Geral Fam 2016;32:366-8 366 editorial blemas sociais). É, pois, da dissonância entre o profissionalismo médico e a impossibilidade de observância de regras rígidas (tempos de consulta, cumprimento dos indicadores) que surge a desmotivação e a exaustão. Desconhecendo em concreto o nexo causal do burnout entre profissionais de saúde, vários estudos realizados, em Portugal, revelaram elevados níveis de burnout, associados a menor tempo de serviço (mais jovens) e à perceção de más
more » ... ções de trabalho, sendo este último o seu principal preditor. 5-6 Curiosamente, no estudo realizado em CSP, trabalhar em Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) parece ser protetor. 5 Independentemente dos méritos e dos deméritos da reforma dos CSP, o processo de contratualização promoveu e instaurou novas culturas organizacionais conducentes à reconfiguração da realidade das práticas profissionais. 4 Em termos práticos, esta ênfase no cumprimento de resultados mensuráveis traduziu-se na implementação de sistemas de indicadores padronizados de desempenho profissional que não conseguiram evitar algum desfasamento do enquadramento clínico e assistencial. 4, [7] [8] Daniel Pinto e seus colaboradores, num exercício académico para uma lista de cerca de 1.500 utentes, concluíram que apenas a realização das atividades preventivas e o cumprimento de indicadores de desempenho exigiam um dispêndio considerável de tempo (cerca de metade do tempo médico), podendo limitar a disponibilidade do médico de família para cuidar de pessoas doentes. 9 Sugeriram, os autores, que antes de serem atribuídas mais tarefas aos MF, seria necessário estudar o seu impacto no cumprimento de outras, como a viabilidade de prestação de cuidados globais de saúde, característica nuclear da MGF 1,9 ou a acessibilidade para a resolução de problemas (e.g., doença aguda). 1 Outro dos aspetos mais controversos subsequente à reforma dos CSP é a dimensão das listas de utentes (Decreto-Lei nº 266-D/2012) 10 que, para os novos médicos contratados, prevê cerca de 1.900 utentes ou 2.358 uni-Profissionalismo e políticas de gestão O que se modificou na prática da medicina geral e familiar (MGF) em 25 anos? O perfil de competências 1 não se alterou, exceto a sua clarificação e consequente impacto na formação e qualidade do exercício médico. A grande mudança ocorreu nas políticas de saúde, particularmente com a reforma dos cuidados de saúde primários (CSP) ocorrida em 2005. Chegada a maturidade da reforma, importa refletir sobre alguns dos seus aspetos controversos, como: a autonomia técnico-científica, a dimensão das listas de utentes e os horários médicos. O que se espera de um médico de família são cuidados de elevada qualidade com uma boa relação custo--efetividade e que estabeleça como prioridades a formação, a investigação e a garantia de qualidade. 2 Considerando aspetos como o contextual, o atitudinal e o científico, a agenda EURACT define como competências nucleares a gestão de cuidados, os cuidados centrados na pessoa, a resolução de problemas específicos ou abrangentes e a orientação comunitária e abordagem holística. 1 Como aspetos essenciais à concretização das competências e das expectativas pessoais e coletivas (população, profissionais e dirigentes) é necessário o respeito pelas características do médico e pela especificidade da sua área profissional. 1 A natureza e a diversidade das tarefas do médico de família (MF) não se compadecem com restrições à sua autonomia técnico-científica, conferindo limites aos modelos industriais de gestão 3 e à expectativa do seu controlo e previsibilidade (aspetos paradoxais dos indicadores). 4 Uma autonomia técnico-científica responsável e custo-efetiva é um dever ético. Tendo presente este princípio, a ingerência de medidas gestionárias no exercício da MGF podem torná-lo crítico em áreas como: a decisão clínica (diagnóstica e terapêutica) e a abordagem da complexidade das pessoas que adoecem (e.g., doença física e mental; doença e pro-
doi:10.32385/rpmgf.v32i6.11955 fatcat:ujlnojutejdubockkobz7naxfu